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745. Senhor doutor Mário Soares:

1. Sempre ao longo da nossa história a orfandade política tolheu a vida nacional. Como chaga purulenta, ou fantasma ensandecido! E o povo sente, sofre, maldiz o vazio imenso, a triste sina, o fado de não ter muleta, de ficar ovelha tresmalhada e faminta nos cômoros da desdita! E, ansiosamente, a guardar a benquista manhã de nevoeiro que lhe traga o salvador, o pai!

N/D
4 Jun 2003

Rezam as crónicas do reino que assim foi, por exemplo, com D. Sebastião, décimo sexto rei de Portugal, que nasceu Desejado e morreu Desejado! E que, às plasgas marroquinas, em Alcácer Quibir (1578), a sua ilusão africana, o seu impeto moço (24 anos apenas) arrastam consigo um exército desorganizado e mal equipado a bater-se com o Xerife mouro Abde Alquerine!
A peleja é rija, dura já quatro horas a batalha, oito mil homens já mortos e, apenas, D. Sebastião e um punhado de fidalgos teima no combate e são, finalmente, mortos!

O povo não acredita e aguarda o Encoberto! É o mito do sebastianismo a imperar numa Pátria órfã que perde a independência e cria, assim, falsos monarcas (o rei de Penamacor, o rei da Ericeira, Gabriel Espinosa e Marco Túlio Catizóni). E dá corpo à dialéctica da esperança redentora, alimentada pelas trovas de Bandarra de Trancoso e de Simão Gomes (o sapateiro de Lisboa).

2. Ora, senhor doutor, é sempre nestes momentos de infortúnio, de orfandade que surgem os Bandarras e os Simões Gomes a criar ilusões, a alimentar sonhos no depauperado espírito nacional! Hoje, dir-se-ia, a criar factos políticos com que vai dando corda à pasmaceira política!

Que é o que me parece está a acontecer com a saga das presidenciais (ainda tão distantes) de 2006. A esquerda, órfã de candidatos, é campo fértil à medrança do trovadorismo sebastinista! E o senhor doutor, velha raposa política, entretem-se no jogo do gato e do rato, ora à esquerda, ora à direita, e, até, pretextando a sua própria candidatura.

E quando faz ciúmes a Freitas do Amaral, rodeando-se de Cavaco Silva – ambos candidatos -, ou vice-versa, a intenção é, tão-só, dividir, confundir a direita, emparedá-la, deixando, assim, espaço e tempo de manobra à esquerda. E, sobretudo, impedir que ela chegue à presidência da República, já que esta tem sido um exclusivo da esquerda e não será consigo no activo que tamanha afronta pode acontecer!

Agora, por acaso, alguém crê, senhor doutor, que apoiaria qualquer dos dois candidatos a Belém? Só quem for néscio, ou tenha memória de pardal. É que, em política, o que faz a diferença é saber jogar bem o jogo dos espelhos, o jogo do que parece é. E ganhá-lo, obviamente!

O que o senhor doutor parece pretender mesmo é estar na onda, ser o guardião da República e ter, assim, uma palavra forte a dizer no momento da escolha do candidato de esquerda que, logicamente, não pode ser o velho inimigo António Guterres. E ensinar aos aprendizes de feiticeiros da política, que podem muito bem ser Santana Lopes e Ferro Rodrigues, que têm ainda de comer muitas rasas de sal para lhe chegarem aos calcanhares. E que aquele que derrotou o seu filho na câmara de Lisboa, se pretende ser candidato, o terá de ser contra ele!

Depois, senhor doutor, quem sabe, pode muito bem ser que, no meio de tamanho nevoeiro presidencial, o povo até veja em si um D. Sebastião! E queira mesmo um presidente-rei, um presidente-avô para a República! E, aí, não tenho dúvidas que o senhor já vai sendo o Encoberto das manhãs de nevoeiro presidenciais!

Com os melhores cumprimentos e até de hoje a oito!




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