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Suas megacompetências

(continuação)
3) – A problemática da indisciplina. A óptica dos alunos, dos professores e dos pais.

N/D
3 Jun 2003

Inserta na complexidade desta temática, a nossa análise irá incidir, neste texto, na visão que os três principais intervenientes no processo de ensino/aprendizagem revelam, tendo como cenário contextual a interacção que se verifica de um modo constante e presencial, primordialmente entre os dois primeiros.

Refiro-me, como é óbvio, aos discentes, aos docentes e aos encarregados de educação.
Que pensa cada um destes actores acerca da indisciplina?

Qual é a sua perspectiva?

Serão ópticas divergentes ou, acaso, vislumbrar-se-á entre elas algo de convergente?

Se atentarmos os interesses e as funções de cada um destes agentes educativos, as situações de “confronto” constatadas nos seus contextos e as opiniões manifestadas, bem como a filosofia de “classe” que lhes é subjacente, não será difícil prognosticar a sua versão sobre os comportamentos desajustados.

a) A perspectiva dos discentes.

A heterogeneidade dos discentes no âmbito económico, social e cultural, associada à frustração das expectativas concernentes às classes desfavorecidas, está na génese de alguns comportamentos divergentes que reptam a assimetria da relação professor/aluno, potenciando o desenvolvimento de um conflito embrionário patente entre estes dois actores educativos.

Das várias investigações dadas a lume nos últimos anos intuiu-se que os alunos inquiridos acerca desta problemática reputam as qualidades relacionais (relações empáticas) como muito relevantes e favorecedoras da disciplina.

Em contrapartida, os discentes questionados apontam como negativas certas atitudes dos docentes passíveis de produzir comportamentos desviantes. Entre elas, surgem o autoritarismo, a discriminação e a “preferência pessoal” (privilégio dos mais disciplinados).

Estes comportamentos, aliados a alguns tipos de interacção selectiva (notas avaliativas trazidas de anos anteriores e os dados relativos à origem sociocultural), potenciam falsas expectativas.
Em consonância com esta filosofia analítica, o primeiro momento presencial na sala de aula assume um carácter decisivo, dado que aí emerge uma série de hipóteses acerca dos professores, as quais irão testar ou experimentar a sua função e a sua autoridade.

Para eles, a postura do mestre conta muito, inclusive, a estatura, o modo como veste, olha, gesticula e reage aos comentários espirituosos. Buscam-se referenciais que a interacção não pode dispensar e que a vão balizar ao longo do ano.

Portanto, os alunos vêem os seus comportamentos (disciplinados ou indisciplinados) como resposta de compensação ou de ajustamento às atitudes desejáveis ou indesejáveis dos professores (ou até de retaliação).

Deste modo, o discurso dos discentes entrevistados revelou que eles atribuem ao docente um papel fundamental no que concerne à intensidade (maior ou menor) dos comportamentos desadequados que ocorrem na sala de aula. Os seus depoimentos corroboram a tese por eles defendida do reconhecimento da imperiosa necessidade de definição de regras de comportamento, discutidas (e não impostas), em ordem a potencial o processo de ensino/aprendizagem.

A maioria deles, nomeadamente pertencentes aos 2.º e 3.º ciclos e ao secundário, denotou possuir a noção, a sensatez e a inteligência de que a condescendência anárquica e a transigência exagerada não fazem parte das suas preferências ou dos seus objectivos.

Consideram, pois, que a actuação do professor pode ser geradora de indisciplina quando o seu poder é exercido inadequadamente.

Porém, a autoridade do docente, quando exercida democraticamente mas com firmeza e apoiada em normas definidas e aceites pelas partes contratantes, é valorizada pelos discentes como muito positiva, pertinente e pedagógica.

Para além de competente, amigo, dialogante, compreensivo e respeitador dos alunos e dos seus sentimentos, o professor deverá ser equitativo no tratamento, bem como permitir a participação na feitura das regras de funcionamento na sala de aula e exigente (sem autoritarismo), mas nunca se demitindo de exercer o seu poder equidistante da heterogeneidade de comportamentos e de personalidade dos discentes, alimentando a cultura para a mestria do “jogo escolar”.

(Continua nos próximos números)




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