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O nosso José Moreira

Perdoe-me o leitor a inequívoca dificuldade com que escavo as profundezas do espírito, mas há momentos na vida em que somos, inevitavelmente, uma criança com medo do escuro. Aprendi com o meu avô que o acto de comunicar, enquanto dádiva de um indivíduo, necessariamente singular e irrepetível, para com outro que é igual testemunho vivo desse indecifrável milagre que é a condição humana, transporta consigo o sorriso interior, a lágrima que não caiu, o arrepio de espinha, a revolta, o espanto, a alegria, a tristeza, a Luz e as Trevas, em suma, o conteúdo da mensagem que se pretende comunicar.

N/D
3 Jun 2003

Não sei se me faço entender, mas no fundo o que pretendo dizer é que o conteúdo de uma determinada mensagem nunca é, em última análise, uma frase ou uma palavra ou uma amálgama de símbolos ou de efeitos vocais. As pessoas falam, escrevem, cantam ou gesticulam porque querem expressar pensamentos, sentimentos ou sensações e, nesse sentido, comunicar é um Acto de Amor genuíno, profundo, doloroso e redentor, tanto mais quanto o seja a mensagem que se pretenda partilhar. Reconheço que há por aí quem muito diga e pouco sinta, mas isso é burla aviltante e perversa, e não comunicação.
O avô Zé, que foi um comunicador de excelência e por excelência, foi para mim o exemplo vivo de que o acto de comunicar é uma doação, uma entrega de um pedaço de nós mesmos ao Outro. É curioso que, na hora em que me proponho escrever sobre o meu avô Zé, sinta, talvez pela primeira vez em toda a sua plenitude, o peso esmagador da referência que constitui esta lição de vida, que é apenas mais uma das muitas que ele nos deixou.

Desconheço se a cidade de Braga sabe quem foi o meu avô Zé, mas duvido que venha a esquecer José Moreira, editor, livreiro, escritor, jornalista, homem que se entregou de alma e coração aos livros, aos jornais, a Braga, a Portugal, ao associativismo, à família, aos amigos e ao Outro que é Jesus Cristo mesmo aqui ao lado, segundo o Ideal que abraçou com tanta intensidade.

Recordarei o meu avô Zé como um espírito livre, jovem e, acima de tudo, dinâmico. O exemplo maior dessa aversão crónica ao imobilismo estará, porventura, nos mais de trinta anos de aventura que foi a “Livraria Editora Pax, Limitada”, “ousadia de um pobre” e de “um grupo de amigos” que tanto fez pela cultura Portuguesa enquanto expressão, não só de Portugal, mas de toda a Portugalidade que se espalha pelos quatro cantos do mundo.

A sua marca indelével consubstancia-se também na coragem com que assumiu o “Correio do Minho” em alguns dos momentos mais complicados da sua história, sem nunca – afirmava-o sob compromisso de honra – ter mandado o jornal à censura; ou nos longos anos de intervenção activa, com a ASPA, na defesa intransigente e determinada da memória bracarense, em nome do interesse público.

José Moreira foi, acima de tudo, um homem absolutamente consciente das responsabilidades decorrentes da cidadania no seu sentido mais nobre, capaz de abraçar uma utopia e querer, imediatamente, transformá-la em algo de concreto, vivendo cada dia como se fosse o último da sua vida. Abraçou o Ideal de Chiara e o Movimento dos Focolares como um alquimista que encontra, finalmente, o elixir da eterna juventude num Evangelho que é Palavra para ser vivida a cada momento, no qual tudo pode ser reduzido a dois desafios que condensam em si o carácter verdadeiramente revolucionário da mensagem de Jesus Cristo: ” Que todos sejam Um” e “Amai–vos uns aos outros”.

A propósito de um livro do amigo e poeta Carlos da Cunha, Porque a Lua se quebrou, disse-me um dia que se tratava de um livro de poemas e “proemas”. Os proemas eram, como o próprio nome indicava, poemas em prosa, um conceito novo ao qual era imperioso dar um nome. Para o avô Zé, não havia nenhum sentido nas críticas de alguns sectores intelectuais ao termo “proema”, uma vez que a força viva de uma língua estava no seu dinamismo e na sua capacidade de se recriar e enriquecer. Se a palavra “proema” não existia e foi inventada pelo poeta, esse facto devia ser celebrado como o nascimento de uma criança.

Não encontro melhor imagem para descrever a singularidade intelectual do meu avô, para quem parar era, efectivamente, morrer. No entanto, e simultaneamente, não reconhecia progresso sem identidade.

Este é, em traços gerais, o José Moreira, que deixou Braga mais pobre com a sua partida, o homem que tinha perfeita noção da importância do tempo passado (identidade e história), presente (valores, acção e comunicação) e futuro (utopia), conseguindo, com a sua experiência multifacetada, uma simbiose ideológica muito própria que reunia humanismo, cristianismo, patriotismo, ecumenismo e Unidade.

A natural nostalgia que sempre acompanha o sentimento de perda impele-me, contudo, a recordar o meu avô Zé, também, como o exímio contador de histórias que nos ensinou, entre tantas outras coisas, que de nada nos serve sabermos distinguir os moscos das moscas quando não distinguimos o mel da m…

Retiro das minhas recordações de infância a estranheza que me causava o infindável número de vezes que tirava o chapéu para cumprimentar as pessoas na rua, a deliciosa traquinice com que desafiava os netos para uma “guerra” com bolinhas de pão, a agilidade com que exibia os seus dotes de “caçador de insectos”…

O nosso José Moreira partiu, como gostava de dizer, para a Mariápolis Celeste. Abraçar-nos-emos de novo, um dia. Até lá, permanece viva em cada um dos que o conheceram a enorme saudade, a sólida referência e a assustadora responsabilidade de honrar a sua memória e aprender com os seus ensinamentos.




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