Fotografia:
Galhardetes

Vem aí o dia 10 de Junho e, com ele, o rotineiro costume de galardoar as personalidades e as instituições que, ultimamente, se tenham salientado em Portugal. Sucede que Portugal está pobre e doente. É um fidalgo de casa arruinada, com quinas brasonadas no portão do palácio, mas sem colheitas no celeiro da quinta.

N/D
2 Jun 2003

Torna-se, por isso, bastante difícil topar uma personalidade ou instituição que, pela positiva, se destaque das demais e mereça o galhardete da praxe.
Quem tenha acompanhado o desenrolar da vida nacional, nos vários quadrantes por onde ela se expande, certamente compreenderá a dificuldade.

Se o destaque fosse pela negativa, então, talvez se esgotasse o cofre das comendas.

Para tanto bastava analisar o que se passa com a pedofilia e a corrupção, com o roubo e a violência e, sobretudo, com a famigerada tanga dos “tugas” lusitanos.

Realmente, com os marinheiros em terra, os militares no quartel, os industriais em férias e os políticos sentados em São Bento, encontrar um “herói” a homenagear, é a mesma coisa que procurar agulha em meda de palha centeia.

É certo que o tradicional “compadrio” e o “toma lá dá cá” ajudam a remediar a situação, mas já era tempo de reparar que, ao lado do ouro e do colar lustroso, também existem medalhas, de metal menos cotado e de fita mais aburguesada.

Seria até uma boa solução.

Deixemos os maiorais entregues à sádica crítica da pedofilia, ao jornalismo de “faca e alguidar”, à mega satisfação dos estádios de futebol, à lamentável ruína financeira e económica, à corrupção e aos branqueamentos de capital e voltemos os nossos olhos para a gente humilde do campo.

Já é tempo de o ti Manel dos Alqueires, que passa a vida a esgravetar na terra o pão bíblico do suor do rosto; da tia Maria dos Codeços que, no alto da serra, poucas vezes veio à cidade, preocupada que tem andado com a casa e com a criação dos filhos e do “vivo”; do ti Zé dos Anzóis, que vê a morte todos os dias em cima das ondas do mar, teimando em trazer, todas as manhãs, o peixinho fresco para a nossa lota; do pároco esquecido da aldeia e do instrutivo mestre-escola rural; do polícia de giro e do pastor serrano e de tantas outras modestas pessoas, a trabalhar de sol a sol, sempre procuradas e sempre esquecidas, receberem, pelo menos, um “muito obrigado” de Portugal.

São estas pessoas que, todos os dias, constroem Portugal e que constituem verdadeiramente aquilo a que chamamos o povo português.

São eles que, de forma especial, dão soldados à Pátria, cristãos à Igreja, operários ao trabalho e cidadãos ao país.

São eles, sabe Deus com que custo e o homem com que amargura, que nos dão o pão que comemos, o vinho que bebemos, a fruta que alegra o pomar e a verdura que viceja o quintal.

E, como paga, após uma vida totalmente dedicada à labuta da terra e ao aconchego do lar, deparam com uma velhice triste e melancólica.

No campo, há muita gente que vive, com pensões de miséria e salários abaixo dos mínimos exigíveis.
Há velhos, mal amparados, a viverem em solidão os derradeiros anos duma penosa e empobrecida vida.

É certo que nunca pediram nada para eles – até, talvez, nem saibam pedir -, mas é obrigação governativa reconhecer-lhes o sacrifício com que, durante tantas gerações, alimentaram Portugal.

Já é tempo da casaca e do sapato de polimento alinhar com o colete do artesão, com o xaile da tecedeira e com outros ademanes rurais que, certamente, não deslustrarão a tapeçaria da cerimónia comemorativa.




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