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Um povo de contrastes

Somos um povo de coordenadas contraditórias. Realmente, quem observar pormenorizadamente a vida nacional, notará que o temperamento do homem português, tanto sobe aos píncaros do optimismo, como desce às ruas da amargura.

N/D
30 Mai 2003

Por um lado, somos um povo orgulhoso de ter dado «novos mundos» ao mundo, de fornecer um carácter de originalidade aos nossos empreendimentos e até nos ufanamos de conseguir fazer o que ninguém mais realiza; por outro, descemos ao mais baixo pessimismo, achando que o de fora é sempre melhor que o nosso, prescindimos da nossa actividade criativa para perfilhar a rotina do «Maria vai com as outras» e achamos que «o pão do vizinho é melhor que o nosso».
Na vida social do país, há outros fenómenos contraditórios, que deixam qualquer observador perplexo.

Com o encerramento sucessivo de empresas que, do nosso país se mudaram para nações com mão de obra mais barata, gerou-se em Portugal uma terrível crise laboral.

Semana a semana, as pessoas despedidas vão alistar-se na segurança social, à procura de novo emprego.

Por isso, podemos dizer que, em Portugal, as estatísticas do desemprego subiram vertiginosamente; todavia, por mais estranho que possa parecer, também se pode afirmar que, em Portugal, há falta de «mão de obra».

Ora vejamos.

É certo e sabido que, todos os anos, por falta de operários portugueses, há necessidade de abrir as portas da emigração a milhares de africanos e orientais para a construção civil; também toda a gente sabe que, no Minho e em outras regiões do país, a agricultura portuguesa não é cultivada, por carência de «mão de obra».

Pelos meus lados, a lavoura está entregue a velhos e a um ou outro funcionário que aproveita os sábados para o cultivo da granja, ao redor da casa.

Mas a grande agricultura, essa está completamente abandonada, por falta de jornaleiros.
E não se diga que é, por não haver de bons salários, pois isso é assunto que, dada a carência da «mão de obra» rural, o nosso lavrador deixou de pôr.

O problema é que, após a quarta classe, com a saida dos estudantes para as escolas da vila ou cidade, o jovem rural desenraizou-se da aldeia e, agora, não quer mais este trabalho Rural.

E porquê?…

– Porque, além de sujo e penoso, este trabalho foi sempre considerado como de segunda categoria.
Além disso, o lavrador nunca mereceu o apreço e o respeito da sociedade que, embora nunca prescindisse do pão que ele amanhã, sempre o considerou um atrasado e um pacóvio.

Ora, o jovem de hoje não gosta de ser assim tratado e, com a população a viver um nível de vida superior, já não aceita trabalhos pesados.

Daí haver, paradoxalmente, falta de emprego e, simultaneamente, carência de «mão de obra».

Por isso, parece-me que, no imediato, a solução da falta de emprego passa pela agricultura e pela construção civil, pesem os calos e o verniz das unhas.

Há mais contradições na vida portuguesa.

Toda a gente se queixa da subida dos preços, de que «não há dinheiro», de que «a vida anda pelas ruas da amargura», etc.

Contudo, nas férias da Páscoa, os hotéis do Algarve estavam cheios e os aviões partiam repletos de turistas portugueses para Cuba, para Cabo Verde e outros países tropicais.

Mais. A venda de pequenos carros e de apartamentos modestos está paralisada, mas a compra de carros de luxo e de vivendas lu-xuosas não diminuiu.

Por isso, pergunta-se:

– Há ou não há dinheiro?… Há ou não há trabalho?…

– Dinheiro (ou, pelo menos, crédito) há, mas está mal repartido. Os postos de trabalho são poucos, mas na lavoura e na construção civil ainda há alguns.

– Haja vontade de a eles acorrer!




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