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O flibusteiro

John Steinbeck, em A Taça de Ouro, romanceia a vida de um famoso flibusteiro chamado Henry Morgan. Que existiu na realidade e que realmente protagonizou os principais acontecimentos narrados.

N/D
30 Mai 2003

Morgan não foi derrotado uma única vez na sua vida de pirataria. Embora os seus sonhos não fossem pequenos, alcançou-os todos. O maior deles, e o último, foi a conquista e consequente pilhagem da riquíssima cidade espanhola do Panamá, na altura conhecida como a “Taça de Ouro”.
O facto de ter conseguido tudo o que desejava encheu-o de vazio. Steinbeck coloca Morgan a dizer nessa altura o seguinte a uma dama nobre que aprisionara na cidade: «Veja que fiz uma nova avaliação da minha pessoa no decorrer dos últimos dias. Se ainda conservo algum valor, é unicamente aos olhos dos historiadores, porque operei algumas destruições. Já foi esquecido o homem que construiu a vossa catedral, mas, durante uma centena de anos, lembrar-se-ão de mim, que a queimei. Isto permite-me tirar algumas conclusões acerca da humanidade».

Aqueles que fazem livros de História ficam mal visto nestas frases. Mas o desorbitado tempo de antena concedido na nossa sociedade a certas pessoas e a certos factos, os livros que se publicam e as capas dos jornais e das revistas permitem também tirar algumas conclusões acerca da humanidade.

Um qualquer homem que se degradou, que perdeu a confiança dos outros, que não consegue olhar para a sua imagem no espelho, que maltratou ou destruiu outras pessoas, que fez da sua vida um banho se lama, ou de sangue, ou de lágrimas alheias, tem lugar assegurado nos palcos que referi.
Deviam mantê-lo escondido e esperar que o silêncio e a solidão o regenerassem, mas trazem-no para a frente do nosso olhar.

E assim, mesmo sem o desejarem, mesmo sem o dizerem, montam-lhe um pedestal; colocam-no no lugar onde deviam estar os exemplos. A insistência em apresentar essas pessoas e esses temas dá-lhes um tom de normalidade, que não é verdadeiro… mas pode levar muitos ao engano.

Ora, isso não está certo. Estamos a proceder como se não existissem entre nós o heroísmo, a competência, a coragem, a dignidade. Como se tudo fosse vulgaridade e apenas aquilo que é indigno e baixo sobressaísse.

Há ao nosso lado muitas pessoas que andam, de muitas maneiras diferentes, a construir catedrais. Há quem semeie árvores de cuja sombra não chegará a beneficiar, quem gaste a vida nos árduos alicerces de um mundo melhor do que este.

Há os que trocaram cidades confortáveis por cabanas de palha pousadas em campos de vento e desolação, para fazerem nascer sorrisos em meninos descalços de tudo. Há aqueles que abraçam leprosos e acariciam deficientes profundos.

Há quem suporte com valentia as provações da vida. Há os que ficaram no seu lugar, quando lhes apeteceria fugir, por quererem levar um dever até ao fim. Há aqueles a quem a honestidade tornou pobres, e caminham agora, direitos e alegres, nas suas roupas remendadas.

Há aqueles que envelheceram na fidelidade a um casamento de muitos anos e vão morrer em breve, rodeados de filhos e netos, contentes, contentes.

Há heroísmos que nos deviam ser mostrados. Porque a vida às vezes é bem difícil e precisávamos de um exemplo que nos animasse. Porque nos acontece com frequência esquecermos as nossas asas: instalamo-nos num estojo morno de conforto e ficamos ali, meio sonolentos. Um exemplo desses poderia despertar-nos.




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