Fotografia:
Onde pára a Democracia?

A sociedade portuguesa está a ser afectada transversalmente por uma crise dos seus valores tradicionais e pela emergência de outros “novos”, criados pela lógica dos estilos de vida consumistas e intelectualmente vazios, onde o “ter”, sem alma nem regras, se sobrepõe ao Ser. Simultaneamente, assiste-se à degradação do poder político e da autoridade do próprio Estado. Não obstante, nem este negro cenário justifica que se ponha em risco o objecto do funcionamento das instituições e do regime democrático: a dignidade da pessoa humana.

N/D
28 Mai 2003

Sendo Portugal um Estado de Direito Democrático, cuja lei fundamental consagra, ao lado dos direitos económicos, so-ciais e culturais, os clássicos direitos civis e políticos, como se explica o espectáculo deplorável a que assistimos pela comunicação social, no passado dia 16, em Felgueiras?
Estes tristes acontecimentos ilustram o esvaziamento total dos valores democráticos, éticos e cívicos essenciais que regulam a convivência política (e social) no nosso país. Desta vez foi Francisco Assis a vítima. Quem será o próximo? Quando e onde? Porquê? Será que falharam todos os agentes culturais envolvidos nos vários processos de socialização destas pessoas?

Todavia, para além dos responsáveis directos destes lamentáveis incidentes, o ónus da culpa também impende sobre alguns partidos do espectro político nacional que deviam ser intérpretes do interesse das populações e verdadeiras escolas de civismo, mas cuja existência nem parece ser inerente ao advento da democracia.

Mais do que simples máquinas de conquista do poder e agências de emprego, onde pontifica o clientelismo aliado à incompetência, esses partidos têm primado por emperrar a administração pública com as suas práticas despesistas, burocráticas e corporativistas, dando lugar ao desgoverno, ao oportunismo, à desresponsabilização, à ganância e ao peculato, cujo grau de perigosidade na administração pública e na sociedade civil põe em causa a paz social, o progresso, os direitos, liberdades e garantias e a própria continuidade do regime democrático.

Tal situação deve-se, quiçá, à relaxação da sua acção política, frequentemente anti-ética, onde o compadrio substitui o mérito, o interesse material oblitera o dever de servir a comunidade e, consequentemente, alastra a corrupção.

Enquanto os lobbies nacionais controlarem descaradamente alguns governos e parlamentares e os grandes grupos económicos regionais e locais algumas autarquias, serão eles que ditarão as regras, criarão os factos políticos, determinarão as decisões e condicionarão a vida de todos nós. Para isso, basta-lhes corromper alguns políticos que exploram a credulidade popular sempre que necessário. E assim se pavoneiam vaidades pessoais e se fazem rápidas fortunas de difícil explicação.

As excepções que, felizmente, ainda existem, tanto a nível individual como institucional, não são suficientes para apagar a angústia que consome o nosso Portugal.

Sabendo-se que a Democracia é uma construção permanente, e que hoje enfrenta novos e mais sofisticados desafios, é obrigação indeclinável de cada cidadão repudiar este status quo e constituir-se em exemplo mobilizador dos grandes valores éticos, morais, cívicos e democráticos, contribuindo, decisivamente, para que o exercício pleno da sua cidadania activa, interventiva e orientadora, funcione como o espaço privilegiado de encontro de quem acredita no Estado de Direito Democrático e no funcionamento das instituições, sempre que a transparência dos processos, a Justiça e as liberdades públicas e privadas se encontrem ameaçadas.




Notícias relacionadas


Scroll Up