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Portugal e a Europa

Portugal é um pequeno país ocupando parte da faixa atlântica da Península Ibérica. Contudo a sua dimensão territorial nunca foi motivo para que a vontade das suas gentes ficasse limitada pela exígua dimensão das suas terras.

N/D
27 Mai 2003

Foi assim desde as origens com os primeiros reis e teve expressão grandiosa na era dos Descobrimentos. Este querer ir mais além, de não se conter no espaço limitado de fronteiras apertadas, tem-nos permitido ter uma presença relevante em vários momentos da História. Por isso refuto de grande importância a posição do Governo ao colocar Portugal na órbita do bloco atlântico no recente conflito do Iraque.
Ao rejeitar de início a visão egocêntrica da França e Alemanha e ao colocar o país ao lado do Reino Unido e Espanha, Durão Barroso deu mostras de visão estratégica que ultrapassará em larga escala as consequências imediatas de uma guerra discutível. Um conflito que analisado à luz do Direito Internacional não deixará de provocar alguns constrangimentos. No entanto poder-se-á perguntar se os acontecimentos do 11 de Setembro, sem dúvida a causa próxima do conflito, não foram eles a negação de toda e qualquer norma, de todo e qualquer direito.

Hoje, muitos dos que pensam que só o poder militar e a arrogância de Bush permitiram agir daquela forma estão por certo a subvalorizar o terrorismo. Um fenómeno medonho, anti-natural, capaz de fazer mergulhar as civilizações num pântano de angústias e de medos de trágicas consequências. O tempo saberá dar resposta a estas e outras cogitações.

Voltando a Portugal e à posição assumida na guerra do Iraque perante os diferentes aliados, para além das razões estratégicas, há outras de índole histórica que não poderiam ser olvidadas.

Não se tratou de uma hostilidade assumida contra a União Europeia, nem tão pouco uma tentativa de beliscar laços civilizacionais importantes com países como a França ou a Alemanha. Foi antes uma opção pela vocação atlântica que há séculos conservamos e que devemos manter e alargar. A Polónia, um dos próximos países a integrar a U.E., deixou de privilegiar as suas relações com os Estados Unidos? Não. O povo polaco tem memória. Não esquece os horrores da Segunda Guerra Mundial e a sua gratidão para com os americanos está sempre presente.

Não foram só as clivagens motivadas pela guerra do Iraque que levaram a União Europeia aos tempos difíceis que atravessa. O alargamento a leste, a crise na sociedade russa, a profunda letargia que trespassa boa parte das democracias europeias, a insustentabilidade do actual estado social são outras causas que vão moldar o futuro incerto que se avizinha.

Após a Segunda Guerra Mundial a Europa preocupou-se com a sociedade do bem-estar consumindo boa parte dos seus recursos na edificação do estado social, relegando para plano secundário áreas tão importantes como a defesa e a política externa.

Os cuidados de saúde foram-se tornando universais e um rol importante de benefícios sociais foi progressivamente alargado. O desemprego, a doença, a maternidade, a invalidez e a velhice passaram a estar protegidos como nunca. Conseguiram-se padrões de qualidade de vida elevados. A natalidade diminuiu drasticamente e a esperança de vida não pára de aumentar, assistindo-se a um envelhecimento gradual das sociedades.

Chegados aqui, as reformas anunciam-se como imprescindíveis e inadiáveis. Há que promover mudanças que aumentem os anos de trabalho e elevem a idade da reforma. É necessário moderar os diversos subsídios e dar-lhes distribuição diferente. Há que premiar o mérito e o trabalho e san-cionar a preguiça e os comportamentos anti-sociais.

E com este cenário o que se vê? Sempre que qualquer governo (de qualquer cor ideológica) tenta reformar o sistema, as decisões são bloqueadas na rua. Aqui, na França, na Alemanha ou noutro qualquer país. Ninguém quer perder direitos e muito menos abdicar dos já adquiridos. Vislumbra-se um beco de difícil saída. A não ser encontrada poderá levar a curto prazo ao desmoronar do estado social e com isso a convulsões sociais de que dificilmente poderemos adivinhar as consequências.




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