Fotografia:
Caricatura ou retrato?

Para um diálogo possível deve acordar-se que o equívoco torna-o impossível, o unívoco facilita-o e o analógico enriquece-o. Lá diziam os Escolásticos que o primeiro passo para uma discussão frutuosa era a definição dos termos, ou seja, o entendimento entre os interlocutores sobre o significado originário e semântico do léxico usado. Aliás, a confusão é inevitável e o caos é o antídoto dum diálogo impossível com toda a aparência de esclarecedor.

N/D
27 Mai 2003

Vem isto a (des)propósito de um tema que não chega a sê-lo porque a representação polémica é um “boneco”. Mas convenhamos que é indispensável saber do que se fala. Ora, por se tratar de “cultura popular” não nos limitemos à arte figurativa mas ouçamos as sentenças: «não vá o sapateiro além do chinelo», «cada macaco no seu galho», «cada coisa no seu lugar»… Também isto é “cultura popular” como “sabedoria”…
A Região de Turismo lembrou-se de fazer “bonecos” que dão a conhecer Braga como a cidade dos três pês (e que evito prolongar!). O caso mereceu habitar nas páginas de jornais e alimentar “sorrisos” vários de margens opostas. Mas vejamos bem do que se trata:

– o “artesão” barcelense tem toda a legitimidade de fabricar “bonecos” para o consumo fácil de um público cansado;

– a Região de Turismo tem todo o direito de responder, segundo a lógica da procura e oferta, com produtos adequados à expectativa problemática dos turistas;

– Braga pode (e deve) lamentar-se de ser conhecida popularmente aquém e além fronteiras por episódios insignificantes, por personagens secundárias ou por produtos atípicos.

Estranho a estranheza de certos “voyeurs” que reagem com impaciência a advertências oportunas ainda que, por circunstancionalismos óbvios, não ofereçam fundamentação analítica.

Se Braga é conhecida como cidade dos três pês, que diríamos da afirmação de Portugal ser o país dos três efes?

E se quase todos reagiram dizendo que tal fórmula é redutiva, por que é que usam o mesmo cliché para outros? Eu confesso que me agrada registar, contra ventos e marés, que Fátima internacionalizou Portugal mais que os nossos famosos futebolistas internacionais! E se pudéssemos perguntar à Amália qual a primazia entre o Fado e Fátima, diria: «O nosso fado é Fátima». Ouçam o que a brasileira Maria Betânia disse estes dias em Fátima!

É evidente que uma polémica é, a este nível, infrutífera. Mas deixem-me que me faça algumas perguntas:

– as nossas cantigas de “sarcasmo e mal-dizer” são as mais representativas da nossa poesia trovadoresca? Eu prefiro as de amor e amigo…

– a poesia erótica do nosso grande Bocage é mais importante que as suas confissões? Eu prefiro as segundas.

– então «não há país que se tenha desenvolvido onde a religião católica é dominante»? Onde nasceram as universidades? Mais proximamente: quem foi D. Diogo de Sousa, Avelino de Jesus da Costa, Manuel Faria, cardeais Manuel Cerejeira e António Ribeiro, Manuel Isidro Alves? Quem são Amadeu Torres, J. Santos, J. Marques? Não sabem que são padres da Diocese de Braga com fama internacional?

Deixemos que a cultura popular exista. Tem toda a legitimidade de se afirmar. Mas não confundamos um boneco com uma escultura, a música de divertimento com três acordes com a composição concentrada, o sarcasmo brejeiro com a fina ironia. Que diríamos se trocássemos a caricatura por um retrato? A primeira pode revelar de modo incisivo a personalidade mas não serve para o cartão de identidade! Que diríamos se alguém dissesse que o “enterro da gata” é o auge da criatividade da expressão dos nossos universitários? Que diríamos se a folia e a rambóia fosse o modo de pensar dos nossos investigadores?

Então, deixemos que o consumo tenha as suas regras e a que a cultura seja minimamente exigente! O trágico é que em vez de preciosos banquetes se coma lixo, que a produção seja pelo paladar de clientes medíocres, que se paguem milhares a um cantor brejeiro e que se regateie a presença e o aplauso a um compositor sério. Mas esse é outro capítulo que não entra no folhetim efémero e superficial de um público que não quer ouvir a verdade mas que se contenta com o repasto das futilidades e das fábulas!

Que o ser não seja o parecer é aceite por todos; mas que a aparência seja a realidade, que a ficção se transmute em verdade, é regra de muitos. Assim sendo, os sensatos são apodados de loucos e os oportunistas ganham fortunas na praça!

A advertência não é moralista mas lógica da história: as minorias podem não ser reconhecidas pelo vulgo da ocasião, mas a história escreve-se com profetas e mártires. O resto é lixeira e oportunismo. Não troquem o retrato pela caricatura!




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