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Assim, não

Nada pode ser pior que o derrotismo. E esta lepra social que, no silêncio, vai corrompendo vontades, aniquilando iniciativas, derrotando estímulos. E é tanto mais gravoso quanto ele é fabricado, alimentado e até acarinhado dentro do seio de nós mesmos. Sem ser uma arma letal de imediato, torna-se numa arma mortífera a médio e curto prazo.

N/D
26 Mai 2003

E desta doença, talvez mais do que da Atípica, que os portugueses padecem no presente; devem ter medo dela, porque se para a Atípica há meios de prevenção e combate eficazes, para o derrotismo não existe nada para o combater e, por isso, no silêncio da sua prepotência, mina, derruba e enfraquece. É o que está a acontecer em Portugal.
As notícias de desgraça em cima de desgraça, a chamada desgraceira nacional, campeia a rédeas soltas, sem que se encontre um cantinho no jornal que lemos, uma alusão nas televisões que vemos, uma conversa de café que frequentamos que façam um grito de esperança; este verrumar miudinho e constante tem efeitos altamente negativistas. Ao matar a auto-estima individual acaba por provocar desmobilização social.

Tudo isto se sente, pela negativa, nos olhares, no encolher de ombros, na contenção da alegria e na emotividade exuberante de que os portugueses eram campeões; a alma está apodrecendo aos poucos. Perspectiva-se o deixar cair os braços num gesto de impotência que pronuncia a derrota.

E depois como querem que a economia saia do buraco, como querem que as finanças cobrem os réditos, como querem mais investimentos, se os responsáveis directos pela revitalização são os primeiros corifeus do derrotismo? Já alguns se apresentam como coveiros. Sem aval de confiança, de quem tem como obrigação dar o sinal verde, como poderemos chegar a ter crédito perante os investidores estrangeiros, ou nacionais?

Não é com a bandeira a arrastar pela chão da amargura que se galvanizam as hostes que hão-de fazer a revitalização. A esperança, que deve ser sempre a última a morrer, não pode ser a primeira a aparecer.

O dr. Miguel Cadilhe prestou, neste âmbito, um péssimo serviço à Nação. Foi realista? Talvez, mas o derrotismo é um estado de espírito que, uma vez assumido, nem sequer se apresta para a subida.

Fora ele, Cadilhe, um simples director geral ou hospitalar e já o teriam dispensado por desajuste no cumprimento dos objectivos do governo. Assim, porque se trata de uma personalidade com currículo feito, o governo tem-se desmultiplicado em arranjar desculpas e consensos fictícios. Se ele é muito a responsabilidade é ainda maior.

Mas outros cadilhos aparecem por aí: uns com maior púlpito do que outros, mas todos afinados pelo diapasão da desgraça. É ler certos jornais, é ler certos articulistas, é estar atentos aos telejornais para vermos como somos um povo que tem o “gosto amargo dos infelizes”, ou, como dizia Eça, somos um povo com um pendor marcante para a “ironia corrosiva”.

Nem na vitória somos capazes de ser grandes! Nunca o mérito é totalmente nosso, é sempre partilhado a meias pela mediocridade do adversário. Isto é sina ou tara? Para quê olhar para baixo quando é nas alturas que voam as águias? Quem levanta a cabeça mais alcança ao longe.




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