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Os jovens e o sistema

Já não é a primeira vez que invoco esta temática; julgo, contudo, que hoje, mais que ontem, é necessário insistir nela.

N/D
25 Mai 2003

A difícil inserção dos jovens no trabalho, com a concomitante ausência de frescura desse ponto de vista e de contributo duma geração que se vê cada vez mais arredada de responsabilidades sociais, são dados tragicamente inegáveis de hoje, numa inversão negativa do que era normal em décadas anteriores; uma política alicerçada mais numa contabilidade financeira a todo o vapor com a consequente quase-ausência de economia, a lógica economicista que prevalece sobre um Estado Social que gerações anteriores ergueram (que causa admiração e uma salutar inveja no outro lado do Atlântico), significa também a destruição despudorada do que de positivo se fez com a institucionalização de reivindicações do final do século XIX e de grande parte do século XX.
Um certo vazio político provoca, pois, a despolitização da juventude; de facto, esta geração está aí, neste início dum novo século, como uma espécie de experimentação de laboratório, quer seja no ensino, no trabalho, no lazer, etc.; a redução de vagas no ensino superior público mal explicada (quando se constata o déficit de formação existente entre nós), por um lado, e o fechamento à actividade profissional, por outro, são outros tantos exemplos duma extensa lista que poderia ser continuada; disso resulta que os jovens estão privados das res-ponsabilidades do que estão construindo.

Isso torna patente a ausência de projecto, a carência ou pouca eficácia de um sistema de valores, mascarados com palavras cujo sentido foi banalizado, como “qualidade”, “excelência”, “gestão”, etc., numa substantivação que já nada ou quase nada retém dos usos semânticos a que se destinavam; as tecno-estruturas pouco têm que transmitir aos jovens, a solidariedade é abafada e em seu lugar prepondera a ostentação elitista; a dinâmica axiológica (dos valores) é substituída pela estática do sucesso, pelo imobilismo da burocracia, pela fatalidade da mão invisível do mercado. Ora, para que haja adesão política é necessário que haja primeiro um conjunto de valores que impregnem de sentido a existência.

Há algumas décadas atrás, quando uma injustiça se tornava patente, dizia-se: “há que acabar com ela”; e, segundo o modelo político de sociedade que se perfilhava, tornava-se um imperativo equacionar a hipótese adequada para acabar com ela; agora, perante uma injustiça, começa-se por dizer que nada se pode fazer: é uma imposição do sistema.

Passou-se, pois, duma posição que tinha como horizonte o poder da acção, para uma outra que tem como horizonte a impotência, ou, ao menos, uma potência extremamente reduzida. De certo modo, estamos numa “democracia sem política”; quer dizer, embora aderindo a um conjunto de princípios democráticos (direitos humanos, eleições por sufrágio directo, liberdade de expressão e de comunicação, etc.), que legitimamente se compartilham, constata-se que a nível da praxis política há uma certa atonia; não se pode fazer grande coisa, ou mesmo nada se pode fazer.

O próprio uso, a propósito e a despropósito, do termo de “cidadania” é disso um exemplo ilustrativo; quantas vezes é usado a bel-prazer de quem o enuncia, esquecendo que na base deste conceito – tal como a sua genealogia conceptual o manifesta -, está sempre, de raiz, esta elementar comprovação: a cidadania requer uma carta de direitos e de deveres. O compromisso político, no sentido da cidadania consciente, deve, pois, assumir um discurso da mudança.

Os jovens já não encontram este discurso, mas a justificação do imobilismo; deparam com a defesa do sistema, das imposições administrativas, da impossibilidade da mudança; o discurso político global é o discurso da impotência: o sistema impõe, as estísticas prescrevem, a economia determina, a política cede.

A política resvala cada vez mais duma “democracia real” para uma “democracia simplesmente formal”, onde se vota de quando em quando, mas o sistema permanece inalterável. Por isso, os jovens ocupam os seus lugares mais por inércia que por decisão própria, e ocupam os lugares que lhes são destinados pelo sistema: a televisão, a internet (“navega-se” mais do que se lê), a comercialização musical, as aulas, os corredores, os poucos postos de trabalho; mas também ocupam as suas margens: os lugares impropria-mente chamados de ócio, os bairros, as ruas, as discotecas, todo o arremedo que distraia do real, que faça esquecer os reais problemas.

O que surpreende hoje em dia nas nossas sociedades é que os grandes problemas, os que preocupam e inquietam as pessoas, são questões que se abordam cada vez menos, ou se abordam pouco, na política.

Daí que o grande problema dos nossos dias – problema ingente -, é o de reinventar formas democráticas, tão novas relativamente ao que hoje temos em dia, como era totalmente nova, há três séculos, a ideia do sufrágio universal; esta era antes uma utopia, mas uma utopia que se tornou realidade.

Tudo isto para que a política transborde o nível das elites, da mera gestão como rotina de papéis, se não confina ao anonimato dos dossiês, se aproxime dos cidadãos – o ponto de partida e de chegada da vida política.

Importa, pois, inventar ideias e métodos, seja o referendo como auscultação, seja o debate em ordem ao melhor argumento e às melhores razões, em suma, o aprofundamento da democracia, de modo que as pessoas sejam ouvidas, o bem-estar seja prosseguido e a adequada mobilidade das soluções se torne manifesta no horizonte da política.




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