Fotografia:
Verdadeiro pater familias

Conheci-o na segunda metade da década de quarenta. Namorava ele para aquela, ainda adolescente, que havia pouco depois vir a ser sua mulher e dar-lhe quase uma dúzia de filhos, criados com um orçamento cujas receitas eram apenas os vencimentos do casal, forçosamente magros, dado o rescaldo de uma Grande Guerra que assolara primeiro a Europa e finalmente o Mundo.

N/D
23 Mai 2003

Debaixo do mesmo telhado de uma mansão situada ali na Avenida Central, morava a mulher que me acompanha, puxando a meu lado a carroça da vida, desde 31 de Julho de 1954.
Nessa moradia apalaçada estava instalada a Obra das Mães Pela Educação Nacional, dirigida por essa grande mulher que foi Susana Lagrifa, assessorada por Irene Marado e Evangelina, esta tia desse consagrado homem dos Direitos que dá pelo nome de Proença de Carvalho, com quem, em férias, todo o pessoal da casa convivia e tratava por Danielzinho.

Minha mulher, ainda hoje perdida em recordações da sua feliz adolescência, não se cansa de dizer que ninguém dormiu naquela memorável noite que precedeu o casamento dessa noiva de ar ingénuo, terna, bonita, meiga e de fino trato. Recorda ainda o assalto às laranjeiras da Senhora-a-Branca, umas a guardar a polícia, e outras apressadamente a colher as lindas, mimosas e perfumadas flores que iam dar o seu toque de beleza à boda de Irene Marado.

Eu tinha à volta de 19 anos. A minha única riqueza era a vivência de sonhos de altos voos que sozinho acalentava. Daí o meu natural distanciamento do noivo que, segundo tresouvia, já escrevia nos jornais!

E a minha timidez era tanta que até me escondia atrás das tílias, quando o par, numa total abstracção, se despedia à porta com um demorado beijo que se adivinhava ser fruto de um amor paixão, abençoado por Deus. Só mais tarde, quando o jornalista se torna livreiro e começo eu timidamente a tomar contacto com os livros, descobrimos que tínhamos muito em comum.

E assim, surge uma amizade que dura até à sua despedida, de vez, do seio da família e dos amigos. Não poucas vezes, nos encontrávamos e falávamos de tudo um pouco, sobretudo depois de deixar a Livraria Pax, da qual era, como gostava de dizer, o sócio gerente pobre, mas também fundador, onde por gosto e com perseverança serviu mais de trinta anos.

A sua adolescência, e certamente um pouco da puberdade, passou-a, nas horas livres, cantando e rindo na Mocidade Portuguesa, invejado pela minha mulher por ter sido discriminada, já que às mulheres era vedado o acesso a “Comandante de Centro”.

Só isso, diz ela, não perdoara a Salazar e, mais tarde, até ficou raivosa, quando veio a saber que se fugisse de casa o seu maridinho podia requerer ao Tribunal a entrega de mulher casada ao domicílio. Quanto ao resto, tem do convívio da Mocidade Portuguesa a memória dos melhores tempos de sua vida. Eu mesmo mantenho boas amizades com velhos colegas da Escola Comercial, que ainda hoje, tantos deles, põem gravata preta no 25 de Abril.

Contudo, bons chefes de família e bons profissionais que assumem com orgulho o ter passado pelas fileiras dessa juventude de S à cinta. Aliás, a Maria Irene não se cansa de dizer que Salazar não era fascista. Eu não desminto. E o director do “Expresso” António José Saraiva pensa como ela.

Desenvolveu a sua personalidade no seio de destacados Senhores do regime: Cerqueira Gomes e Henrique Cabral e tantos outros. E também de amigos que se identificavam com o pensamento de António de Oliveira Salazar: Cunha Matos, António Vilas-Boas e Alvim, Egídio Guimarães, e o eleito, entre todos, Amândio César que lhe vai rasgar horizontes no campo das Letras: «recordo o meu primeiro encontro com Amândio César e a calorosa recepção que me fez. Como se estivesse à minha espera desde tempos imemoriais e eu fosse a sua promessa por cumprir […].

Estavam lançados os fundamentos de uma amizade para sempre, para a vida e para a morte, para a dor da criação literária, para os comuns empreendimentos culturais, para ajudar a superar as fraquezas que povoam estes 50 anos de vida que consumimos juntos […].

Na Arcada, o nosso ponto de encontro era o “Café Astória”. Ali se tratavam algumas das mais apaixonadas e veementes polémicas entre grupos de sinal diferente. Ali se situava a nossa tribuna possível e o lugar de encontro. Ali fizemos um longo e penoso aprendizado de intervenção pública […]. Ali nasceram, viveram e morreram os mais ingénuos, mesmo se inflamados projectos […].

Amândio César fascinava o meu espírito pela alegria da sua independência […], pela quase imperceptível ligação do seu espírito vivíssimo à vocação profundamente cristã da sua alma. Amândio César e Augusto Cerqueira Gomes foram os únicos mestres que tive a rasgarem-me perspectivas espirituais e intelectuais que nunca supus ao meu alcance…».

Mas também conviveu com Aníbal Mendonça, José Pinto Cardoso, Renato Feio, Cónego Melo, Afonso Palmeira, António Álvaro Dória de quem diz, numa das suas crónicas: «escreveu livros, estudou figuras nacionais e mundiais, redigiu dicionários em várias línguas […], assinou crítica literária em jornais e revistas de cultura, designadamente na “Gil Vicente” do seu grande amigo e intelectual vimaranense Manuel Alves de Oliveira, e na “Bracara Augusta”, fundada por Sérgio Pinto».

Zé Moreira nunca discriminou ninguém por motivos religiosos ou políticos. Exemplo disso a ligação a Álvaro Dória, um descrente em Deus omnipotente e omnis-ciente. E, politicamente, não se cansava de desabafar com amigos, que foi um homem da esquerda que, na hora do adeus à Livraria Pax, reconheceu e defendeu os seus direitos de sócio pobre – o saudoso Dr. Guilherme Branco.

Homem de inquebrantável fé em Deus, solidário com os mais necessitados, apoiante do regime de partido único, mas sem tacho, nem penachos. Um bom democrata cristão se tivesse vivido num outro contexto histórico.

Aqui fica também o obrigado pela oferta do seu livro de memórias “Instantes” que definem uma época, e do simpático autógrafo com que quis distinguir-me.




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