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O estád(i)o de loucura (2)

Parece-me que não haverá alguém minimamente inteligente ou racional, que não ache que a dimensão do custo do novo estádio de Braga ultrapassou a léguas aquilo que deveria custar para as necessidades que irá cobrir e, ao mesmo tempo, para a realidade quer bracarense, quer do país. Muito fácil se torna validar esta realidade empírica, já que estão a ser construídos outros estádios da mesma dimensão, no mesmo país, com a justificação do mesmo evento, a custos enormemente mais baixos, eu reforçaria, esmagadoramente mais baixos.

N/D
20 Mai 2003

Se também postularmos que o presidente da edilidade bracarense é um homem inteligente, que julgo ninguém duvidará, mesmo os que dele não gostam, algo correu ou estará a correr mal. Não acredito pois, que o presidente da edilidade justifique esta loucura de milhões de contos com a “assinatura” do arquitecto. Reproduzindo palavras suas, “é cedo para dizer quanto é que o estádio vai custar. […] Este não é mais um estádio de futebol; é um estádio com a assinatura de Souto Moura”. Ou então, o problema estará mesmo na dita assinatura do projectista da obra.
Deixemos de lado o facto do edil ir dizendo que não sabe quanto o estádio vai custar, que a ser verdade, não abonaria absolutamente nada a seu favor. Quem se mete a construir uma casa, ou comprar um carro, que não sabe quanto vai custar?

O que nos faz logo pensar que o presidente da edilidade acha é que não estamos preparados para ouvir quanto vai custar um estádio em Braga pago pelos bracarenses, contribuintes ou não, pois a factura vai chegar a todos, mesmo aos que não pagam impostos.

E reforçando esta constatação, lá nos vai dizendo que a derrapagem da primeira empreitada do estádio, votada em reunião de câmara, só representará 3% “em termos de volume global das obras”. Ou seja, se sabe que são 3% do total, é porque sabe o total, e nós também, pois basta fazer a simples conta de aritmética, dando um valor acima de 18 milhões e meio de contos.

Concentremo-nos então na famosa assinatura responsável por tantos milhões de contos empregues num simples estádio de duas grandes bancadas. Enormes bancadas, direi mesmo. Correndo o risco de me acharem vulgar pela analogia, sem objectivo de ridicularizar alguém, provavelmente se alguém ficar ridicularizado serei eu mesmo, a minha primeira sensação ao ler as frases do edil sobre a “obra”, é que estamos perante um daqueles casos em que o autor é tão bom, tão bom, que quando inadvertidamente solta um gás, o que ocorreu foi arte e não um traque.

Mais recentemente, verifiquei que a minha primeira percepção estava errada. De facto, o edil bracarense já reconhece “que a primeira projecção do arquitecto Souto Moura falhou”. Poderemos pois inferir, que pelo menos já foi encontrado um responsável por algo que não correu como se esperava. Obviamente segundo a perspectiva do edil bracarense. Repare-se na importância deste facto, pois a decisão de construir este estádio foi tomada com base nessa primeira projecção.

Mas todo o planeamento para elaborar este estádio, se é que houve, está longe de tudo o que qualquer gestor experimentado faria, de forma a conseguir cumprir os objectivos propostos, que julgo, seriam o de construir um estádio novo, digno, funcional a custos perfeitamente adequados. E se o edil, com o peso dos anos na administração do município, queria deixar alguma referência mais ambiciosa, seria de esperar essa legitimidade, mas que essa maior ambição tivesse um custo comportável para os seus munícipes. Senão vejamos:

1. em gestão, existe o conceito de curva de experiência, que em termos grosseiros se pode traduzir na redução de custos pelo aumento da produção. Isto é, relacionando com o caso em apreço, se o arquitecto fosse agora projectar um segundo estádio, com a experiência do que se tem passado neste, certamente iria projectar um estádio melhor e mais barato.

Este facto é ditado pela ciência e não por nós. Mesmo qualquer cidadão menos preparado, percebe que a primeira porta construída por um aprendiz de marceneiro, sairá mais cara e de menor qualidade que a porta construída por um marceneiro experimentado. Daí, não ser de estranhar, bem pelo contrário, que a administração do Sporting CP tenha recorrido à empresa holandesa responsável pelos projectos de alguns dos últimos estádios que foram construídos na Holanda e Alemanha, o mesmo acontecendo com o projecto do novo estádio do FC Porto.

No caso do SLBenfica, a direcção anterior de Vale e Azevedo tinha contratualizado o projecto do novo estádio com o arquitecto Tomas Taveira, mas a direcção de Manuel Vilarinho prescindiu do projecto e encomendou um novo à empresa que entre muitos projectos onde esteve envolvida, se incluem os estádios dos últimos Jogos Olímpicos de Sydney. Mas não só as SAD’s tomaram decisões desta ordem. Houve autarquias como Faro e Loulé que fizeram exactamente o mesmo. O estádio de Faro-Loulé, com a mesma capacidade do de Braga, vai custar 25% do novo estádio de Braga, e com muitíssima probabilidade de ser mais funcional, que deve ser o objectivo de um estádio de futebol, e não uma obra de arte, que garanta prémios de arquitectura;

2. o novo estádio de Braga vai ter seguramente um preço de custo à volta de 20 milhões de contos. Mas o custo dele para o município bracarense vai atingir mais de 32 milhões de contos. Não é necessário estudar gestão financeira para se entender que, se a edilidade está a pagar as obras só e exclusivamente com crédito bancário, com empréstimos a 20 anos a uma taxa aproximada de 5% ao ano, não só terá que pagar o custo do estádio, como também o empréstimo financeiro.

Ora, por menos preparado que seja o munícipe, percebe que se for comprar um automóvel novo por 2.000 contos, sem dinheiro nenhum, recorrendo exclusivamente ao crédito, o automóvel vai custar não só 2.000 contos, mas também os respectivos juros;

3. pelo que li, e parece que não li mal, o projectista ia alterando o projecto de arquitectura, daí ter “caído” a que seria a maior pala da Europa, depois de ter ido beber inspiração às pontes incas do Peru durante uma das suas viagens. Ora um projecto dinâmico, vai necessariamente originar um custo também dinâmico, não será necessário muito para perceber essa evidência.

E, quanto ao facto da opção de fazer duas bancadas, que segundo o autor do projecto é porque “hoje já ninguém aguenta ver uma peça de Peter Handke em ‘zoom’, atrás das balizas”, seria sem dúvida merecedor de uma análise particular numa coluna do jornal;

4. acredito veemente que o autor do projecto do novo estádio de Braga vai ser premiado num dos melhores e mais prestigiados concursos de arquitectura. Porventura será muito bom para ele. Contudo, arrisco apostar que um dos parâmetros que não entrará na análise das obras arquitectónicas será o seu custo desproporcionado ou não, para as necessidades que o estádio irá suprir. Tome-se como exemplo, o projecto do pavilhão multiusos de Vigo, a construir em Samil.

O projecto foi encomendado ao arquitecto Siza Vieira, com um elevado prestígio mundial e muito apreciado e referenciado em toda a Espanha, coleccionador de prémios de arquitectura, com grandes obras referenciadas em toda a Espanha, como o Centro Galego de Arte Contemporânea e a Faculdade de Ciências de Informação em Santiago de Compostela, e o Centro Meteorológico da Vila Olímpica em Barcelona. Pois a edilidade de Vigo, perante o projecto, pagou, guardou na gaveta, e encomendou um novo à empresa que entre outros projectou o multiusos da cidade da ciência em Valência. Não sei será válido inferir que a assinatura de Siza Vieira não justifica tudo, sei é que Vigo não irá ter de pé, um multiusos projectado por Siza Vieira.

O custo do novo estádio podia ser só um percalço, muito grande por sinal, mas os factos que se nos vêm apresentando, demonstram que estamos mais perante uma política de gestão que me abstenho de adjectivar, pois poderia ofender alguém. Não é que se vão gastar, repito gastar, meio milhão de contos, no maior placar da Europa, talvez hipoteticamente para tapar a pedreira de “cortar a respiração”? Certo é que o placar tem uma importância quase nula para o espectáculo futebolístico, e na melhor das hipóteses funcionará uma hora por mês.

Será que ninguém consegue ver, que se colocarem um placar proporcional ao dos outros estádios, ou até mais pequeno, já que em Braga só vão existir duas bancadas, com os milhares de contos restantes se constrói a nossa melhor piscina olímpica da Europa, com utilização permanente, sete dias por semana, catorze ou quinze horas por dia, por milhares de munícipes?




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