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Quem nos resta para acreditar?

Carlos Carvalhas diz, e com razão, que são os eleitos quem, pelo seu comportamento menos digno, desacreditam a classe política. Já o sabíamos, mas dito por ele, que tem tribuna, adquire um aval acrescentado. Mas faltou dizer o resto. Vejamos: a fuga de Fátima Felgueiras para o Brasil veio uma vez mais demonstrar a falta de agilidade da justiça em Portugal.

N/D
19 Mai 2003

Mas, para lá desta atitude, nada legal, da ex-presidente da Câmara de Felgueiras, a verdade é que ela não está só em todo este processo. Aproveitou-se do lugar para dele tirar benefícios pessoais? Onde estão os que se deixaram corromper? Onde estão os comparsas? Se beneficiou é porque teve sempre do outro lado quem fizesse parcerias. Firmas, quantas? Pessoas a título individual, quais? Quem esteve do outro lado a jogar certinho com Fátima Felgueiras? Durante quanto tempo? Como diz o povo, tão bom é aquele que cala como o que consente. Quem são os calados? Quem são os que consentiram? Na beiçada todos os intervenientes são do mesmo peso e do mesmo tamanho.
O mesmo se passou com os GNR-BT de Albufeira. Onde estão as empresas que aceitaram, quiçá fomentaram, a cobiça desses agentes de trânsito? Foram punidos? Estão detidos para averiguações? Os agentes serão demitidos… e os empresários, o que lhes acontecerá? Estes não deveriam estar também em prisão preventiva? Porquê? Não se correrá o risco deles também fugirem, tentarem ocultar ou destruírem provas? Quem esconde a mão para que se não veja donde partiu a pedra?

Um teimoso não teima só; de igual maneira um corrupto não corrompe só; um não existe sem o outro como faces que são da mesma moeda. Desonesto um, desonesto outro. O mais recente caso, o das finanças de Setúbal. As individualidades, a título singular ou colectivo, não sabiam o que estavam a fazer quando lhes era proposto as alternativas da burla ao fisco?

Como temos pena desta ingenuidade!! Fosse para pagar mais e veríamos como depressa lhes passava toda a candura! Por que razão não denunciavam os funcionários do fisco e a rede intermediária, quando estes os convidavam a pagar menos do que aquilo que deviam à Fazenda Pública?

As mesmas interrogações e as mesmas deduções se lhes aplicam por semelhança. As acusações do ex-autarca de Almada, ao culpar o aproveitamento dos ex-vereadores daquela Câmara, de extorsão às empresas locais para recolha de benefícios pecuniários aos partidários do PS e do PSD, põem a nu toda a baixeza de escrúpulos tardios, sempre de duvidosa moral. Porquê só agora, sr. ex-autarca? Que preço teve o seu silêncio até hoje tão severamente guardado? Há honestidade na sua denúncia, ou apenas despeito por favores ultimamente não conseguidos?

Olhando à nossa volta há lixo por todo o lado. Como gostaríamos de continuar a acreditar nos eleitos… mas sentimos a desilusão de Garrett: «E as minhas asas brancas/ asas que um anjo me deu/ Pena a pena me caíram/ nunca mais voei ao céu». O autor de “Viagens na Minha Terra” perdeu as asas brancas por um amor funesto de mulher, nós perdemos a candura nos eleitos por um amor funesto de suas vãs cobiças. Em quem devemos acreditar? Nos que foram para as Câmaras e enriqueceram? Nos que, estando no grupo deles, multiplicaram magros tostões em largos milhões?

Quem nos resta para acreditar?




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