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Dois olhos para ver

Partindo do princípio de que o ser humano tem dois ouvidos e uma só boca, a tradição popular criou o aforismo, que nos recomenda «ouvir muito e falar pouco». Pois eu, na esteira da mesma filoso-fia, atrever-me-ia a dizer que, se temos dois olhos, devemos olhar para as duas faces de qualquer questão e não ficarmos apenas agarrados ao parecer da nossa simpatia. Infelizmente, não é isso que se verifica, pois a maioria das pessoas só costuma ver o lado que favorece a sua opinião.

N/D
19 Mai 2003

Vem isto a propósito da guerra do Iraque.

Naturalmente, que começo por dizer que condeno a intervenção americana embora, no meu ponto de vista, ela enfileire ao lado de outras colonizações, de que a história nos fala.

Todas essas colonizações invasoras foram opressivas e brutais, embora só um agrupamento desses povos merecesse a classificação de «Bárbaros».

Desde os medos e os persas, passando pelo império romano, não esquecendo as colonizações portuguesa e espanhola, até aos recentes imperialismos soviético e americano, todos estes domínios colonizadores, como a história confirma, não foram meigos nem tolerantes, em relação ao povo invadido.

Colocados num prato da balança alguns possíveis benefícios de progresso e civilização que levaram e, no outro, as desvantagens e atropelos cometidos, sem dúvida que este pesará muito mais do que aquele.

Não sei se a colonização portuguesa foi excepção, como se diz «intra-muros»; todavia, continuo a pensar que anjinhos de asas brancas só no céu.

Em relação à guerra do Iraque, devemos ver as coisas com ambos os olhos.

É, realmente, horripilante contemplar tanto homem estropiado, tanto corpo abatido, tanta casa derrubada, tanto espólio valioso delapidado, como as televisões nos mostraram.

Mas, mesmo sem a imagem da televisão, será impossível e difícil imaginar o que também se tenha sofrido, debaixo dos escombros das duas torres americanas?…

Não haveria por lá também jovens esventrados, adultos com os miolos esmifrados, pessoas entaladas com as pernas partidas, a gritar um… dois… oito dias, até sucumbirem, por falta de ajuda?…

E, se foi assim, como se explica que, nas recentes manifestações pacifistas, não houvesse uma única palavra de condenação dos respectivos assassinos e de comiseração por esses inditosos soterrados?…

O sangue e o sofrimento de uns não é igual ao dos outros?…

Poder-me-ão dizer que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Contudo, não esqueçamos que há processos sofisticados de espionagem para desvendar coisas ocultas e que o terrorismo não é preparado e treinado no mundo das estrelas.

Por isso, sem doença nem paixão, olhemos para os dois lados e lamentemos, sem diferenças nem sofismas, toda e qualquer guerra, seja a terrorista, seja a chamada guerra clássica.

Toda a beligerância deve ser contestada, quer a feita no Oriente, quer a realizada no Ocidente; a opressão dos povos deve ser abolida, tanto a de Hitler e de Pinochet, como a de Estaline ou Fidel de Castro.

Só é correcta e desapaixonada a atitude que olha para ambos os lados, isto é, que vê com os dois olhos.

O nosso pacifismo deve ser afirmado, sem quadrantes políticos, nem coordenadas espaciais.

Organizar manifestações de pacifismo, apenas e quando o tirano invasor não pertence ao nosso quadrante político, esquecendo as invasões planeadas e feitas pelos nossos comparsas políticos,
é uma visão hipócrita e canhestra do problema.

Checoslováquia, Chechénia, Angola e Cuba são páginas tão negras da história, como Iraque, Afeganistão, Vietname, Palestina, etc., etc.

Nas movimentações pacifistas ultimamente registadas, em meu entender, apenas a uma pequena percentagem de manifestantes se poderá aplicar, com rigor, o nome de verdadeiros e puros pacifistas.

A outra parte dos manifestantes aproveitou a ocasião e, em vez de «construir paz», foi lá «fazer guerra» ao adversário político e à ideologia, que se não compagina com a que defende.

Além disso, parece-me que não é com gritos e atitudes frenéticas de pacifismo que se consegue estabelecer a paz no mundo, mas sim com diálogo, com compreensão e tolerância entre todos os povos.

Já há até quem diga que, não fora o pacifismo do senhor Chirac ter manietado o trabalho da ONU… e talvez se tivesse evitado a guerra do Iraque!…

– Enfim… é muito difícil ser prior nesta freguesia!…




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