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742. Senhor Ministro da Cultura:

1. Grita-se, por aÍ, que os jovens de hoje não gostam de ler, não sabem ler! E o mais preocupante é que o fenómeno se alarga aos estudantes universitários (ainda, recentemente, um inquérito de rua à sua cultura geral resultou numa vergonha nacional, a ponto de, por exemplo, Ramalho Eanes ser um futebolista e Eusébio um escritor)!

N/D
14 Mai 2003

Perante isto, lê-se nos jornais, ouve-se nas rádios, vê-se nas TV’s, concluiu-se em conferências, colóquios e simpósios que estamos perante uma nova vaga de burrice, uma nova praga de analfabetismo e que dá pelo nome de iliteracia!
E, então, já não lhe bastando sofrer de bichas de espera (hospitais e caixa), de fins de mês (longos e estéreis), ou de dor de corno pelo Porto ganhar o campeonato, o povo, coitadinho, havia, ainda, de arcar com mais esta maleita!

O pior, senhor Ministro, é que a praga alastra e contagia! Quem não leu, ou ouviu já, e em público, locutores de rádio e TV, jornalistas, políticos e professores a arrear valentes calinadas ao falar, ou escrever?

São, pois, diariamente, mais que as mães os pontapés nacionais na Gramática (fonética, morfologia e sintaxe), como se a nossa querida Língua não passasse de uma bola de futebol, ou de um bombo de festa! Mormente, por quem passa o dever e o exemplo de lhe dar o melhor trato possível!

2. Ora, senhor Ministro, esta realidade dói e lança culpas sobre todos nós. É que, se os nossos avós não liam porque não sabiam e não tinham escola que lhes ensinasse, os nossos netos não gostam de ler, ou não sabem ler, porque têm escola demais.

Porém, há nesta questão dois nós górdios: não gostar de ler, não saber ler! O não gostar de ler pode explicar-se pela sociedade tecnológica em que vivemos: audiovisual, computador, internet! A informação à mão e a entrar-nos pelos olhos em imagens e pelos ouvidos em sons e, ob-viamente, a poupar-nos ao esforço de busca, de procura, de criação!

As nossas crianças e jovens não precisam, assim, do livro como fonte de informação, de conhecimento, de factor intelectual. Daqui, o não precisar de ler, o não gostar de ler! Depois, com o acesso do homem tecnológico, informático aos centros de decisão, busca-se o mais simples, pragmático e rápido, perdendo, obviamente, o livro e a leitura o lugar e alcance que noutros tempos granjeavam!

Agora, senhor Ministro, o mais grave: o não saber ler! E porquê? A escola que acompanha e promove esta sociedade mediatizada, tecnologizada e desintelectualizada é também um lugar onde o livro e a leitura vão ficando para trás! Porque é enfadonho e não apraz!

E os professores, como elementos dinamizadores que devem ser do acto e gosto de ler, também não sentem apetência pelo livro e a leitura! E quanto menos se lê, menos se sabe e menos se gosta!

Então, o que fazer? Primeiro, concluir, realmente, pela necessidade de saber ler e gostar de ler e, depois, lançar as medidas capazes de promover tal gosto e saber.

E se o vício de ler, o bichinho da leitura se apanha nos bancos da escola primária e se alimenta ao longo de toda a escolaridade, só uma política séria da leitura e do livro, através de bibliotecas, centros de leitura, feiras do livro, encontros de leitores, horas do conto, etc. etc. etc. dará frutos e, sobretudo, uma política do livro mais barato, do livro ao desbarato!

Porque, senhor Ministro, enquanto as coisas se mantiverem como estão, as nossas crianças e jovens continuarão a não saber ler, a não gostar de ler!

Com os melhores cumprimentos e até de hoje a oito!




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