Fotografia:
Uma gata e duas fugas

Então é assim» (como agora se diz): os estudantes de Braga, a exemplo do que aconteceu ou vai acontecer noutras academias, mandam às malvas os livros e o estudo e, por uma inteira semana!, é borga da pesada, tocada por cerveja a rodos.

N/D
12 Mai 2003

Quem sou eu para não reconhecer que a vida também é feita deste lado festivo e exorbitante, em que a confraternização se exprime e se refaz?! Existe certamente no chamado “Enterro da Gata” e noutras festas académicas este “tempo fora do tempo” que é próprio do tempo da festa. E ainda bem que assim acontece, digo eu. O que não impede que possamos exprimir juízos e notas críticas, sabendo, embora, de antemão, que algum estudante que porventura costume ler estas linhas terá, esta semana, mais em que se ocupar.
A primeira é-me suscitada pela leitura do interessante trabalho que o mensário da UM “umJornal” publica no número deste mês. O facto de as tradições académicas serem supervisionadas por uma instância – o “cabido dos cardeais” – cuja imagem de marca é ser constituído por estudantes que têm no activo mais matrículas do que os anos do curso (por outras palavras: os chamados cábulas) não compromete a credibilidade e genuinidade das tradições?

Por outro lado, o “Enterro da Gata” é o culminar de um processo que se inicia com a praxe. É estreita a ligação entre um momento e o outro. Depois das críticas e das polémicas, que dentro e fora da Universidade se têm levantado em torno do lado desumano e selvagem da praxe, não vimos um real movimento de questionamento e revisão.

Os representantes dos estudantes, para tentar atenuar as denúncias; as autoridades académicas e policiais por comodismo ou receio; e todos nós pelo silêncio mais ou menos conivente – todos vamos deixando correr as coisas. Até ao dia em que a solução (?) venha a ser imposta do exterior.

Um tempo de festa é, antropologicamente, um tempo de vibração, de irre-verência e de alargamento de horizontes. Ao vermos o peso que os interesses económicos – em especial ligados às bebidas alcoólicas – conquistaram nestas tradições, ficamos sem saber se se bebe para festejar ou se se festeja para beber.

Em tempo – Os escândalos continuam a eclodir a um ritmo que não dá tréguas. Em Felgueiras, só faltava mesmo uma fuga para o Brasil, para pôr a cereja mediática em cima de um bolo em putrefacção.

Na Assembleia da República, a mesmíssima cereja da imunidade parlamentar tinha sido já colocada pela Comissão de Ética para impedir um outro presidente de Câmara de se confrontar presencialmente com a justiça. Embora em escala diferente, são duas fugas. Mas “mediaticamente” desiguais.




Notícias relacionadas


Scroll Up