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Não somos os culpados

Os portugueses estão numa posição difícil para escolher um culpado da situação em que actualmente se encontra o nosso País. Culpamos o actual Governo por só ver números à sua frente e fazer do equilíbrio orçamental uma obsessão, como se por trás dos números não existissem pessoas com as suas necessidades e dignidade humanas a salvaguardar. Culpamos o Partido Socialista pelo descalabro económico e financeiro em que o País se encontra derivado à governação mãos-rotas de Guterres.

N/D
12 Mai 2003

Ainda recentemente o Tribunal Constitucional mostrou um monstruoso buraco nas contas da Saúde que não foi contabilizado no Orçamento. Pasme-se! Culpamos os sindicatos pela política reivindicativa que sustentam sem olharem às condições em que se encontram as empresas deste País. Esta política de terra queimada não credibiliza ninguém. Será que a palavra patriotismo só serve para os discursos?

Culpamos as facilidades de crédito concedidas pelos bancos, ao ponto das famílias estarem sem possibilidades de solverem os seus compromissos. O crédito mal parado vai disparar e teremos então ocasião de apreciar quanto de “suicídio social” foram estes empréstimos não selectivos. Os passivos vão falar por si sós.

Escutá-los-emos dentro em pouco. Culpamos a economia global que, sem pejo e sem pudor, procura com afinco renovado uma mão de obra barata e/ou escrava. Culpamos a recessão económica mundial porque se encolhe nos investimentos, não deixando às economias abertas como a nossa quaisquer possibilidades de revitalização e crescimento. Culpamos a União Europeia que nos tira a totalidade da nossa soberania.

Também é verdade que perante ela, estamos como aqueles filhos que querem ser independentes com a mesada dos pais. No meio de tantos culpados, os cidadãos comuns, principalmente os assalariados por conta de outrem, não aparecem nos bancos dos réus. No entanto, como vítimas inocentes, serão eles, sempre eles e não outros, a pagarem as culpas alheias. O castigo da inocência é uma tragédia inqualificável. Provoca ódio onde deveria haver amor.

Para quando o fim deste martirológio? Como uma má herança ele se repercute sempre nos mesmos herdeiros. Ai dos pequenos!!! Mesmo no que diz respeito ao endividamento familiar, a quota parte da culpa desse endividamento deve-se ao facto de terem levado os portugueses a pensar que era possível a abastança à guisa europeia; criaram-lhes um clima de tais facilidades que tudo parecia possível, quando tudo, afinal, era tremendamente ilusório… e depois não queriam que elas ousassem?

Até Ulisses, o marido da fiel Penépole, pediu que o amarrassem fortemente ao mastro do seu navio e mandou tapar com cera os ouvidos dos marinheiros para que todos os argonautas pudessem resistir aos cânticos das sereias. São os fortes que nos ensinam quão poderosas são as tentações.




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