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Duas famílias e o choque de inculturas

O convite para fazer uma intervenção numa iniciativa – o 8.º Encontro de Professores de Português, promovido pela Areal Editores, que decorreu em Lisboa na quinta e sexta-feira passadas – em que se homenagearia Mia Couto obrigou-me a ler e a reler diversas obras do escritor moçambicano. Numa delas, em Na Berma de Nenhuma Estrada (Lisboa: Caminho, 2001), há uma pequena história intitulada “Os vizinhos” que é bastante instrutiva.

N/D
11 Mai 2003

Fala-nos de duas famílias muito amigas que partilhavam o mesmo cão de guarda, o Silvester Estaline. «Não havia dia que não trocassem favores, emprestassem alegrias, esmiudaçassem conversas. Aquilo era como se não houvesse paredes. Ou que não tivessem ouvidos: digamos que uma família única distribuída em duas casas contíguas».
Apresentada a relação, excelente, entre as duas famílias, o narrador adianta mais uma informação: «As famílias se vizinhavam tanto e por tanto tempo que os filhos acabaram por se namoriscar». Começaram vizinhos e acabariam compadres, como alguém então diz. Como é usual nas histórias, há um momento em que surgem as adversidades. Para estes vizinhos, elas aparecem pela mão de um punhado de notícias apresentadas pela televisão. As informações dão conta da existência de «conflitos étnicos».

O que, no início, era um «assunto pequeno e longínquo», vai-se, depois, «alastrando grave como contagiosa doença» a que os vizinhos escapam porque um dos membros de uma das famílias, não percebendo o que se estava a passar, garantiu que o que realmente havia eram conflitos «técnicos» que, num incerto clube, opunham o treinador aos jogadores.

«Mas as notícias se adensaram, como as nuvens em Novembro». O céu dos vizinhos ia rapidamente escurecendo. Já não se confundia étnico com técnico. A doença já os começava a corroer. Uma das famílias julga-se com «a raça verdadeiramente pura» e julga que os vizinhos têm a raça impura.

A inimizade começa a disseminar-se. «Durante um tempo, os namorados ainda se encontram no vão das escadas. Às escondidas. Mas o cão, o Silvester Estaline, denunciava a sua presença e os moços se separavam, chamados pelas vozes severas. Não tardou que fosse o último encontro».

O narrador sublinha um pormenor que considera ser da maior gravidade. «Ninguém lhes deu essa ordem de separação. Era coisa que eles absorveram do noticiário – a irreconciliável diferença entre as suas culturas». As consequências das notícias são devastadoras. «Os vizinhos liam, escutavam e ganhavam novos entendimentos do universo. Tudo ganhava uma nova lógica: havia a História, a religião, as tradições – tudo isso sempre os dividira. E as famílias se interrogavam: como puderam ter sido amigos?».

Não era só «a raça» que os dividia. «Uma tarde, a moça tiquetacteou os dedos na janela do antigo namorado. Queria saber uma última coisa: a religião dele qual era? A bem dizer, o moço nem sabia bem. Foi dentro, ao pai, para confirmar. Depois, veio a resposta: que era a outra, a única, a verdadeira. Mas qual? Isso o pai não explicara. A moça ainda tentou posterior esclarecimento mas a cortina foi puxada, por conveniência de silêncio».

A história dos vizinhos é também a história da construção de um ódio. «A distância foi dando lugar ao ódio. E à convicção de que a culpa dos males mundiais residia ao lado. Desgraças passadas e futuras só tinham uma única e fácil explicação: os outros, ali à mão de serem condenados». O passo seguinte não será propriamente inesperado. «Certa noite, um dos vizinhos tomou a drástica decisão – agredir os outros, apanhando-os em desprevenção.

O plano era simples, tão simples quanto a raiva: matar o chefe do anexo clã».

A história da relação entre estas duas famílias exemplifica bem os efeitos que os meios de comunicação de massas podem ter junto de pessoas permeáveis. O choque que aqui se descreve é semelhante aos que noutros sítios têm vindo a ocorrer. Embora constantemente se insista em classificá-los como choques de culturas ou de civilizações, os embates a que mais assistimos são os que, como neste caso, opõem inculturas ou incivilizações.

O confronto entre as duas famílias vizinhas encerra-se depois de o Silvester Estaline ter aparecido no momento mais adequado para sabotar o crime e promover a reconciliação entre o «vizinho matador» e o «vizinho morredor». Tudo voltaria a ser como no início, na altura em que os vizinhos eram «uma família única distribuída em duas casas contíguas».

Este texto é dedicado à memória do meu amigo José Moreira. A unidade entre as pessoas foi o que ele mais desejou. O seu empenhamento visou sempre fazer da humanidade uma família única.




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