Fotografia:
Bilhete de identidade de um povo

Há absurdos que vêm por bem. Ajudam a explicitar razões que dormiam tranquilamente no rolamento dos anos e dos séculos. O dinamismo dos tempos vai sempre espicaçando novas reflexões, enquanto a tendência de repousar sobre o adquirido pode suscitar inércias e preguiças que desvirtuam a frescura e a novidade de carismas e instituições.

N/D
10 Mai 2003

Tem sido quase anedótico o que se passa em França sobre o traje laico do cidadão na escola ou na foto de bilhete de identidade. Pergunto-me até se o Marquês de Pombal estaria autorizado a uma pintura (foto) de identificação sem a sua vasta cabeleira…
Nem é claro se se trata de um problema de segurança, identidade ou fé laica. Ou mesmo de direito, relativo a uma lei obsoleta mais que moribunda. Mas a polémica é útil. O curioso é que se pretendia laicizar o religioso apenas porque era cristão – velhas quezílias anticlericais – e se acaba por afirmar o religioso pela via de outra religião, como se o Estado se sentisse mais dignificado por uma crença que pouco tem a ver com a sua história.

Obviamente que não está em causa qualquer conflito ou despique entre o islamismo e o cristianismo. Trata-se da concepção do religioso a partir do estado ou do estado a partir do religioso. Que os estados e governantes se sentem endeusados, isso sabemos. Bem se recorda a história dum grande estadista europeu que um dia, em casa, ouviu a mulher, surpreendida por algo, exclamar: “oh meu Deus”. De olhar compungido ele replicou: “na intimidade, trata-me por Charles”.

De facto, quando os homens se endeusam, facilmente são apanhados pelo ridículo e o problema nacional que em França sucedeu ao da guerra no Iraque deixa a Europa perplexa acerca de si mesma. Aí se percebe que João Paulo II tenha lembrado à Espanha o que já havia dito à Europa: “não tenhas medo de ser o que és. Lembra-te da tua história e da tua matriz cristã”.

Lenço, véu, sharia, hábito. Tudo secundário para identificar uma religião. Mas eloquente para se compreender onde alguns religiosos e laicos colocam o essencial da sua fé ou descrença. E o Islão está a colocar a vários estados europeus problemas que o cristianismo nunca colocou. Mas que, diga-se, são bem-vindos.




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