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A obra faraónica

Vivemos no século XXI, mas ainda há carências, a vários níveis (saneamento básico, infra-estruturas rodoviárias, transportes, etc) em muitas das nossas aldeias. Braga é um exemplo paradigmático.

N/D
6 Mai 2003

De facto, tive oportunidade de verificar “in loco” e de ouvir das populações de algumas freguesias limítrofes da cidade de Braga queixas veementes de residentes que reclamam há anos, sem sucesso, a intervenção da Câmara Municipal em questões ambientais e na criação de condições para uma melhor qualidade de vida. Enquanto isto infelizmente é real nos dias de hoje, há decisões camarárias que canalizam verbas avultadíssimas (o superlativo é aqui apropriado) para o futebol, nomeadamente para a construção de novos estádios. Sem sentido de equilíbrio.
Não colhe o argumento de que as instâncias europeias ligadas ao desporto elogiam os projectos arquitectónicos. A verdade é que se pode questionar a utilidade de tais obras, que custam muitos milhões ao erário público (o mesmo é dizer, ao bolso de todos nós), e também o seu impacto real no desenvolvimento do País. Tenho dúvidas que os ganhos com o Euro 2004 suplantem os custos envolvidos nos diversos estádios de futebol.

Enquanto isto, as populações conti-nuam a aguardar condições de bem-estar essenciais. Reclama-se que o Governo resolveu antecipar as alterações no imposto da sisa, mas nem por isso as autarquias envolvidas na construção destas estruturas desportivas fazem um esforço por controlar as verbas canalizadas para as mesmas. Os orçamentos continuam a ser ultrapassados.

No caso de Braga, o Eng.º Mesquita Machado não sabe, pelo menos até há poucos dias, quanto vai custar a obra. O que, diga-se em abono da verdade, é uma irresponsabilidade e uma tremenda incompetência.

Para que servem os orçamentos? A administração da obra é directa ou foi objecto de concurso? Não foi adjudicada por um valor determinado? Como se pode conceber que o orçamento inicial, embora a lei preveja revisões, já tenha derrapado, para mais, cerca de 200%? E o Senhor Presidente da Câmara ainda tem a lata de dizer que não sabe quanto vai custar o empreendimento?! Porventura, nesta altura do campeonato, ainda não existe um caderno de encargos? Reparem, caros leitores, o orçamento dinâmico e acelerado (os adjectivos não podiam ser outros!) do estádio em causa já atingiu quase 100.000.000 de Euros!

Já há quem diga que o Eng.º Mesquita Machado quer um monumento à altura do Centro Cultural de Belém e que tem uma especial predilecção pela antiguidade egípcia. Lembremo-nos que no antigo Egipto, as pirâmides e outros monumentos faraónicos foram feitos por escravos…

Agora, numa sociedade democrática, os cidadãos contribuem através dos seus impostos para as obras de interesse da colectividade. Mas será que a obra em questão é considerada prioritária pela maioria da população?




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