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Por terras de Babilónia

“Sobolos rios que vão / Por Babilónia, me achei Onde sentado chorei / As lembranças de Sião
Enquanto nela passei (…)”.
Luís de Camões

N/D
5 Mai 2003

“Sobolos rios que vão / Por Babilónia, me achei
Onde sentado chorei / As lembranças de Sião
Enquanto nela passei (…)”.
Luís de Camões

São muitos os mistérios que permanecem após o desfecho da recente guerra no Iraque. O paradeiro de Saddam Hussein e da maior parte dos altos cargos do seu governo e do seu partido mantém-se uma incógnita; um elevado número das forças armadas eclipsou-se como num golpe de magia; quanto às célebres armas de destruição maciça, que foram o principal motivo para desencadear a invasão, ainda se anda à espera da oportunidade de as poder mostrar.

Como foi possível, por exemplo, que os soldados norte-americanos não tivessem instruções sobre quem era a grande maioria dos ocupantes do Hotel Palestina, em Bagdade, para terem apontado o canhão de um carro de combate e abatido dois jornalistas?

Sobretudo, como foi possível que, uma vez controlada a capital do Iraque, se tivesse deixado que o recheio esplendoroso e único do Museu de Bagdade e da Biblioteca Nacional tivesse sido pilhado ou destruído nas “barbas” dos militares, sem que estes esboçassem, na prática, um gesto significativo de travagem?

Os Estados Unidos da América detêm dos melhores especialistas do mundo em muitas áreas, os quais seguramente não desconheciam que o “País de Entre-os-Rios” Tigre e Eufrates foi o berço das grandes civilizações pré-clássicas; que a terra onde já manou o leite e o mel acolheu a cidade em que nasceu Abraão, e cidades de grandes ressonâncias bíblicas como Babilónia e Nínive; que o Iraque de hoje foi o berço onde emergiu a escrita cuneiforme e os primeiros códigos jurídicos, foi capital do reino dos Assírios e “centro político e cultural de uma das três religiões monoteístas”, no dizer da UNESCO.

Os norte-americanos não podiam, por isso, desconhecer que quer o Museu quer a Biblioteca de Bagdade eram depositários de um tesouro e de um património de largas dezenas de milhares de peças, fundamentais para a memória comum da Humanidade e para a história das religiões.

Ter deixado que ocorressem a pilhagem e o saque – pelos vistos não tão espontâneos como pareceram à primeira vista – revela menosprezo ou falta de planeamento e previsão ou incapacidade de resposta ao imprevisto. Qualquer das explicações é preocupante. Verdade é que todos morremos um pouco no atentado bárbaro ao património e à memória da Humanidade que os responsáveis militares norte-americanos deixaram deliberadamente acontecer.




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