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O espelho de Narciso

Deve ou não deve o ministro Paulo Portas sair do governo? Deveria ou não deveria ele, por iniciativa própria, suspender o mandato até ao total apuramento da verdade sobre o seu envolvimento no caso da Universidade Moderna? Durão Barroso deveria demiti-lo? Para falar verdade, é assunto que a muitos importa pouco. A nós importa muito. Aquilo que nos incomoda não são as circunstâncias do momento, o que nos faz mossa é a doutrina que subjaz duma situação destas.

N/D
5 Mai 2003

Deve ou não deve o ministro Paulo Portas sair do governo? Deveria ou não deveria ele, por iniciativa própria, suspender o mandato até ao total apuramento da verdade sobre o seu envolvimento no caso da Universidade Moderna? Durão Barroso deveria demiti-lo? Para falar verdade, é assunto que a muitos importa pouco. A nós importa muito. Aquilo que nos incomoda não são as circunstâncias do momento, o que nos faz mossa é a doutrina que subjaz duma situação destas.
Não é apenas uma situação incómoda para Durão Barroso, ou para os partidos da coligação, é uma situação pouco agradável para todos os que se interessam pela nobreza da política.

O governo, seja ele qual for, tem de ter uma cara limpa de qualquer suspeita e, quando ela surge menos apresentável, quer seja verdade, quer seja suspeita, o primeiro ministro deve ter a coragem de convidar o visado a suspender as suas funções até prova de inocência.

Todos percebemos que a oposição quer minar a coligação atacando Paulo Portas, como já atacou Lurdes Cardona e vai atacando, sempre que tem oportunidade para o fazer, Bagão Félix.

Os portugueses, à força de observarem as manobras dos políticos, também já lhes conhecem as tácticas, as manhas e as jogadas. Talvez por isso lhes negam, ou pelo menos regateiam, uma grande credibilidade. Dizem-nos que o que interessa é que Paulo Portas desempenhe bem o seu papel de ministro da Defesa, porque quanto ao resto…

Discordamos plenamente desta tentativa de apagão do passado, ou, para sermos menos drásticos, desta tentativa de passar uma esponja sobre o passado, seja de Paulo Portas, seja de qualquer outro político.

Um ministro é um espelho para onde convergem todas as miradas. Se esse espelho não está totalmente limpo, e tem nódoas e manchas de dedadas pessoais, então passa de espelho a alvo, e os alvos são para abater.

O cidadão comum tem, em juízos e seus julgamentos, uma escala de valores para classificar os políticos; nesse quadro axiológico podemos garantir que a honestidade vem muito primeiro que a competência. Pode-se perdoar a um ministro que tenha algumas debilidades de ordem técnica, mas não se lhe perdoa que tenha debilidades de ordem moral.

Em conceito social alargado, um ministro é em si um expoente duma sociedade com determinados valores. Ora, se o ministro é “pecador” como os outros, a sociedade entende que ele não merece o pedestal e, por isso, espera que ele desça, ou o façam descer da peanha e volte a ser um cidadão como eles. Depois, até lhe desculpa as faltas.

Por isto que acabamos de apontar parece nos que o primeiro ministro deveria já ter substituído Paulo Portas; não deve o actual governo defender Paulo Portas para sustentar a coligação, antes deve defender a ética da governação e a moral dela emergente. Mau governo é aquele que governa sem ética nem moral.

Mais que a invasão dos bárbaros, quem verdadeiramente derrotou o império romano foi o laxismo da sociedade romana. Quando um fruto apodrece por dentro, apodrece também o caroço e depois nada resta para comer e um mau governo “faz fraca a forte gente”, como bem disse Luís Vaz de Camões. Um bom político não deveria, como Narciso, olhar-se no espelho da água de fonte e apaixonar-se por si mesmo.




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