Fotografia:
Salgado Zenha oitenta anos depois

Nasceu em Braga a 2 de Maio de 1923 e morreu a 1 de Novembro de 1993. É um dos filhos notáveis desta querida Roma Portuguesa. Criado no seio de uma família da classe média alta, frequentou na idade própria o Liceu Sá de Miranda.

N/D
2 Mai 2003

Nasceu em Braga a 2 de Maio de 1923 e morreu a 1 de Novembro de 1993. É um dos filhos notáveis desta querida Roma Portuguesa. Criado no seio de uma família da classe média alta, frequentou na idade própria o Liceu Sá de Miranda.
Não poucas vezes, sobretudo quando tinha exames, desceu o passeio, na rua dos Chãos, a caminho do Liceu, para não passar sob o bojo do cavalinho da Correaria Moderna, também conhecida por Casa Clemente, ali e um pouco mais acima, há mais de cento e cinquenta anos, sujeito a todas as intempéries, que, segundo a tradição popular, dava azar a quem se atrevesse a passar debaixo da sua pança.

Concluído o Liceu rumou para Coimbra onde veio a licenciar-se em Direito na velha Universidade. Ali deu nas vistas, não só por se tornar aluno brilhante, mas também por lhe caber a honra de vir a ser o primeiro aluno eleito para a presidência da Associação Académica (AAC), durante o Estado Novo.

Ocupou o lugar em fins de 1944, mas não o aqueceu, pois foi demitido meses depois por se recusar a participar numa “espontânea” manifestação a favor do regime. Começa aqui a sua longa caminhada de contestação ao governo de Salazar e mais tarde de Marcelo Caetano.

Foi um dos fundadores do MUD-Juvenil, criado em 1945, do qual se vem a divorciar mais tarde por ter vindo a descobrir que esse Movimento não casava bem com a sua maneira de ser e pensar.

Conhece Mário Soares na campanha da candidatura do general Norton de Matos, em 1945, à Presidência da República. Ambos descobrem que têm muito em comum. Daí uma sólida amizade que vai perdurar até ao dia em que, no plano político, têm os dois de medir forças. Esse momento surge em 1980, quando Mário Soares retira o apoio a Eanes e Salgado Zenha se colocou à frente do Partido Socialista e levou este a manter-se fiel ao acordo que fizera com o general, no sentido de apoiar a sua reeleição. O sentimento da política foi bem mais forte que os laços de amizade.

Retomando o fio à meada, ambos vão apoiar, em 1958, a candidatura do general Humberto Delgado à Presidência da República. Envolveu-se em vários movimentos de contestação ao regime. De salientar a Resistência Republicana e Socialista, em 55, Associação Socialista Portuguesa, em 65 e, por fim, o Partido Socialista, do qual foi membro fundador.

Distinguiu-se na defesa de diversos acusados de actividades contra o colonialismo e o regime. Tais actividades subversivas permitiram-lhe trazer à perna uma apertada vigilância da PIDE e umas habituais “férias” na prisão por várias vezes.

Foi um dos homens fortes, já no período de transição do poder militar do MFA, para as mãos do poder civil legalmente eleito pelos cidadãos. Foi ministro de justiça nos I, II, III e IV Governos Provisórios e ministro das Finanças no VI Governo, também este provisório.

Assumiu-se como verdadeiro guerreiro a favor da unicidade sindical, monopolizando com os seus debates toda a comunicação social durante um grande período de tempo. Não fora a sua aguerrida luta e o Partido Comunista não viria a ter a concorrência da UGT à sua enfeudada Central Sindical (CGTP/IN).

De realçar o papel preponderante que desempenhou junto do Vaticano na redacção do Protocolo Adicional à Concordata entre a Santa Sé e a República Portuguesa, por si assinado na Cidade do Vaticano a 15 de Fevereiro de 1975, juntamente com Giovanni Cardinale Villot. Foi este protocolo que permitiu a legalização do divórcio, proibido pela legislação anterior, para os católicos que tivessem casado pela Igreja.

Serviu a política com paixão mas, ao contrário de Mário Soares, não a tempo inteiro. Se foi grande na luta contra o regime do Estado Novo, não deixou de ser profissionalmente um dos mais credíveis advogados da praça e não menos acérrimo pelejador de grandes causas. «Homem de um só rosto e de uma só fé».

Defensor intransigente dos direitos do Homem, afirmando-se como um profundo humanista. Não tinha a queda de Mário Soares para a luta política, talvez travado por princípios que em caso algum era tentado a renegar. Foi notável publicista não só no plano político, mas também na área do Direito. Já de costas voltado para Mário Soares, candidata-se em 1986 à Presidência da República, com apoio do PCP e do PRD, mas não passa à segunda volta. Acaba aqui a sua actividade política activa. E todos nós lamentamos que a amizade de algumas décadas tivesse sido relegada para segundo plano.

Seria bom que não se misturasse política com amizade. Que o destino político de cada um fosse diverso compreende-se, mas já não se compreende que isso pusesse fim a uma amizade que nasceu em 1945. Foram 35 anos de vida em comum na luta política. Convém recordar que, em Janeiro de 1970, Mário Soares deu uma conferência de Imprensa em Nova Iorque atacando o regime de Marcelo e o Colonialismo. O tema mereceu a atenção dos canais internacionais. Por isso foi aconselhado a não regressar ao País.

Maria Barroso, de luto pelo pai, com a mãe gravemente doente e com João e Isabel ainda a precisar dos seus cuidados, e ainda o colégio para gerir, treme de aflita. Mas amicus certus in re incerta cernitur. É na diversidade que se conhecem os verdadeiros amigos. Salgado Zenha abeira-se de Maria de Jesus Barroso e insiste que aceite de empréstimo as suas economias pessoais. Maria Barroso não hesita, tais são, de momento, as suas dificuldades.

Já depois da Revolução, Zenha recebe o produto do empréstimo, mas recusa-se a contabilizar juros. Maria de Jesus desabafa: «Um amigo, quase um irmão» (Vide Maria Barroso, Um olhar sobre a vida – livro de Leonor Xavier com prefácio de Manuel Alegre. Grato fico a minha mulher, Maria Irene, por me ter surpreendido com esta prenda – o livro – que traduz um pedaço da vida humana desse grande homem de Braga e do País). Avesso a homenagens não pôde impedir que o Parlamento, na Sessão Comemorativa do XXI Aniversário da República, o distinguisse a ele e também a esse singular Homem de Estado que foi Sá Carneiro, com uma sentida homenagem póstuma.

Também a Universidade do Minho, numa sessão solene a que assistiu o Presidente da República, Jorge Sampaio, em 16 de Dezembro de 1998, não deixou de reconhecer o alto contributo que Salgado Zenha prestou ao País no agitado período pós 25 de Abril, sem esquecer Braga que serviu, desde 5 de Março de 1977 a Setembro de 1985, como Presidente da Assembleia Municipal.

Uma palavra de louvor à viúva Maria Irene Salgado Zenha pela feliz ideia de ter instituído uma Fundação, junto da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, com o nome do marido (F.F.S.Z.), dotando-a com um fundo inicial próprio de 55.000.000$00, em numerário. Coisa rara nos dias de hoje. Gesto nobre e singular este que também vai perpetuar a memória de quem tanto se distinguiu nessa grande Escola de renome internacional.




Notícias relacionadas


Scroll Up