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Numa sociedade erotizada

O balanço da violência nos estabelecimentos do ensino básico e secundário no ano de 2002 é negativo. Em relação ao ano 2001, por exemplo, no ano 2002, os abusos sexuais aumentaram 81%. De 64 casos em 2001 foram detectados em 2002, 116.

N/D
1 Mai 2003

O balanço da violência nos estabelecimentos do ensino básico e secundário no ano de 2002 é negativo. Em relação ao ano 2001, por exemplo, no ano 2002, os abusos sexuais aumentaram 81%. De 64 casos em 2001 foram detectados em 2002, 116.
A escola é o reflexo da sociedade em geral, tal como os filhos reflectem, na escola, aquilo que se vive na sociedade e na própria família. E poderemos pretender descobrir ou inventar outros estratagemas para fazer a leitura dos números que constituem o balanço geral, mas não as descobriremos.

Há tempos fui encontrar numa casa de recuperação um meu antigo aluno do ensino básico. Fixei esta criança (agora jovem) pelo facto de mostrar que o ambiente que carregava era muito problemático, inclusive deixava denunciar forte dose negativa de vivência familiar.

Está claro que nas aulas de Religião e Moral, dos problemas que discutimos, aparecem sempre o problema familiar, a sexualidade, a droga, a toxicodepência, etc. O rapaz estava ali por causa da toxicodependência e no diálogo que se travou e nos testemunhos que aqueles jovens deram, veio sempre à baila o ambiente familiar, como causador primeiro da derrocada em que aqueles jovens se deixaram envolver.

Das poucas palavras que escutei, agora, a este jovem foi: “o Sr. Professor bem me dizia… mas vou conseguir!”

Perante os números que agora saem a público deixando antever o estado em que os nossos jovens se movem nas nossas escolas e continuando a lamentar as situações limite em que muitos vivem, somos levados, mais uma vez, a perguntar: onde está, verdadeiramente, a raiz do mal? Onde descobrimos o eixo em que tudo isto se move?

De facto, não é preciso ir muito longe para todos detectarmos que a raiz do mal não está nesses jovens, muitas vezes indefesos e que facilmente caem na armadilha social e ambiental. E tal como a lei natural nos aponta: a corda parte sempre pelo lado mais fraco. Por outro lado, o elo mais fraco é que é sempre marginalizado e secundarizado.

Estamos numa teia social tal, com contornos tão fortemente ameaçadores, que só os que têm personalidade forte, são capazes de resistir e singrar. Não admira, pois, que esses jovens com baixo nível cultural, com mau ambiente em casa, com um circulo de amigos de “corda bamba”, se metam nesses antros de miséria, de bandalismo, de prostituição e de droga. O que é que eles mais terão a perder do que aquilo que já foram perdendo? O que é para eles a escola? O que é para eles a família? O que é para eles a sociedade? O que é para eles a própria Igreja? Se perderam tudo ou quase tudo, onde se poderão agarrar para construir o futuro?

Nessa mesma reunião de recuperação da toxicodependência, em todos os testemunhos escutados, pareceu notar-se ao fundo do túnel, uma luz que ainda cintilava. Seria a réstia de esperança que ainda naquela organização de “Jovens em Caminhada”, os jovens acolhidos, ainda poderiam devisar.

Também notei que o ambiente de família (ou falta dele) foi o grande tónico apontada pela maioria dos toxicodependentes: a pobreza (miséria), a não aceitação, o abandono, o alcoolismo, a ausência do relacionamento amistoso. Para além disto, as companhias (más) são sempre apontadas como as pedras de toque para a derrocada final.

Mas eu também não vejo onde é que a parte da sociedade mais fragilizada possa ir cair, a não ser nesses becos sem saída. Onde andam os valores que foram os pilares da construção da nossa história e da nossa identidade? Onde estão os sãos costumes que regulavam a convivência familiar e social? Porque se vê por todo o lado o erotismo a pulular, sem a mínima fronteira entre aquilo que é razoável e irrazoável, entre aquilo que é são e doentio? Onde está a orientação de uma verdadeira educação sexual neste tempo e neste mundo, onde tudo anda sob a pressão do sexismo e do erotismo? E depois, admiram-se: “quem semeia ventos, colhe tempestades”.




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