No artigo anterior deixei em suspenso uma análise sobre os desafios e oportunidades que um pequeno país, do ponto de vista demográfico e territorial, como Portugal pode sabiamente explorar face à chamada Belt and Road Initiative chinesa.
Para leigos na matéria, a expressão aqui em inglês é designada por Faixa e Rota, em Português de Portugal (sendo diferente no do Brasil).
Visto que o assunto daria muito que falar, limito-me a recomendar aos interessados e curiosos, o livro que escrevi recentemente: o primeiro em Portugal sobre o tema1, no dizer do Presidente do Instituto Internacional de Macau, Dr. Jorge Rangel.2
No passado dia 22 de fevereiro de 2018, a convite da Multisecular liga de Amizade Portugal-China, proferi em Lisboa uma palestra sobre o tema.
Perante uma plateia ilustre, constituída, entre outros, pelo General Rocha Vieira (o último governador português de Macau), o almirante Fernando Melo Gomes (proeminente figura da armada portuguesa), o general Pinto Ramalho e vários diplomatas chineses em Portugal, fiz questão de deixar claro que sou um amigo da China, mas crítico.
Sem nunca tocar na questão de Taiwan (espécie de linha vermelha ou dogma inquestionável) para não ferir a suscetibilidade da representação diplomática chinesa em Portugal, ousei, contudo, ‘arriscar’ ao nem sempre ser politicamente correto. Mas fi-lo inclusive em relação a Portugal, ao apontar o dedo à falta de infraestrutura para receber os ‘charters de chineses’ que o visionário Paulo Futre antevia em tempos.
Alvo de uma certa maledicência e escárnio na altura, as palavras de Futre têm hoje um feliz encontro com a realidade, exceto na questão dos charters, porque o aeroporto de Lisboa está no limite e há anos que se discute onde será o novo aeroporto. Feliz encontro porque hoje se vê cada vez mais chineses a visitar Portugal.
Por outro lado, o turista chinês ultrapassa atualmente, em termos de despesa, o turista norte-americano e o angolano, despendendo uma média diária de 642 eur. Nada que me surpreenda porque a classe média chinesa, que supera em número toda a população dos Estados Unidos, pode hoje viajar. Uma ‘liberdade’ sem precedentes, já que nem sempre foi assim.
Para ilustrar a minha não-estupefação com os montantes gastos diariamente pelos turistas chineses em Portugal, contei à plateia o que presenciei, em outubro de 2017, a bordo do voo direto Pequim-Lisboa: um chinês que segurava sorridente um volumoso maço de notas não de 5eur, mas 500eur, antes de aterrar em Lisboa. Não sei se ele tinha noção de quantas vezes lhe cabia na mão o salário mínimo de vários portugueses. Mas Portugal agradece certamente.
Ousei indagar o quão bom seria para a economia insular se mais voos diretos provenientes da China, aterrassem também na Madeira e nos Açores, em vez de apenas em Lisboa.
Durante muito tempo, Madeira e Açores estiveram praticamente reféns de um monopólio aéreo, que privava uma grande fatia de portugueses de conhecer estes lindíssimos arquipélagos, a não ser que pagasse caro.
Hoje as low-cost trazem milhares de turistas às ilhas, algo que beneficia a indústria hoteleira, estimula o comércio local e dá vida aos arquipélagos, sobretudo aos Açores, já que a Madeira sempre teve uma maior procura turística.
Termino com Sines e Beja. O projeto de fazer do porto de Sines, um entreposto na Rota da Seda marítima chinesa não só é viável tecnicamente, como pode ainda dinamizar o aeroporto de Beja, para o qual nem as low-cost querem voar.
Penso no contributo que Sines pode prestar aos contentores chineses, recebendo, por mar, produtos inacabados, que podem ser concluídos em solo português, e, portanto, europeu, para posterior venda aos restantes países da União Europeia (com as respetivas comissões para Portugal).
Por outro lado, Beja reforça a rede marítima, ferro e rodoviária, permitindo o transporte aéreo para mercadorias perecíveis ou sensíveis à humidade, que não podem esperar, por conseguinte, demasiado nos portos nem aguentar o longo frete marítimo.
1 Duarte, Paulo (2017). A Faixa e Rota chinesa: a convergência entre terra e mar. Lisboa: Instituto Internacional de Macau. ISBN: 978-989-99457-8-4 2 ttps://pontofinalmacau.wordpress.com/2017/11/28/paulo-duarte-apresenta-primeiro-livro-em-portugues-sobre-a-iniciativa-uma-faixa-uma-rota/Autor: Paulo Duarte