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Apenas duas rebuçadeiras mantêm tradição em Braga

Reportagem | 13 de Março de 2017
Apenas duas rebuçarias mantêm, em Braga, a tradição de fabrico e venda dos «Rebuçados do Senhor». Durante a Quaresma, percorrem as igrejas onde decorre o Lausperene.
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Há 80 anos a acompanhar o Senhor

Maria do Céu Ribeiro, ou Céu, como é conhecida, vai cumprimentando os crentes. Muitos já a conhecem. Tem 63 anos e conta 15 de presença assídua nas igrejas onde decorre o Lausperene Quaresmal, uma tradição que consiste na exposição do Senhor para adoração dos fiéis durante a Quaresma. Começou nesta lide graças às vizinhas, que eram “rebuçadeiras”. «As minhas vizinhas faziam, eu ia para lá embrulhar os rebuçados e via fazer», conta. Começou para «ganhar um dinheirinho extra», mas também «para manter a tradição». É varredora de profissão e costuma tirar férias por esta altura para vender rebuçados. Antigamente, recorda, Braga tinha 15 rebuçadeiras. «Agora somos só duas», diz.

O investigador bracarense Rui Ferreira, que tem debruçado parte do seu trabalho sobre a História da cidade, explica que esta tradição existe há cerca de 80 anos e nasceu por iniciativa de uma senhora que começou a fabricar os seus rebuçados e a vender à porta das igrejas. «É uma manifestação de carácter mais profano. Trata-se de um ícone cultural», diz.

«No dia seguinte ao Carnaval começa a Quaresma e nós acompanhamos o Senhor até ao fim, em todas as igrejas», conta Céu. A rebuçadeira diz que muitas vezes são os próprios padres que anunciam aos fiéis a presença das «senhoras dos rebuçados».

Alexandrina Silva, que ano após ano percorre as igrejas onde decorre o Lausperene, está habituada à presença das rebuçadeiras. «Se não soubermos onde está o Senhor, sabemos por elas. Onde elas estiverem, está lá o Senhor», explica. 

Na cesta, para além dos rebuçados, há lugar para o calendário do Lausperene. São muitos os fiéis que solicitam essa informação. Mesmo que não comprem os “rebuçados do Senhor”, é com um «pega lá, meu amor», que Céu e Susana atendem o pedido. E é com orgulho que Céu diz: «Nós chamamos a atenção do povo para o Senhor que está cá exposto». As rebuçadeiras, explica Rui Ferreira, acabam por anunciar a exposição do Senhor, antes mesmo de os fiéis atravessarem a «cortina de adoração» que veda a porta da igreja.

 

Pouco lucro mas muito «amor à tradição»

Susana tem 45 anos e vende os “rebuçados do Senhor” há cinco. Fá-lo por necessidade e por gosto. Está desempregada. «Neste momento o meu rendimento é isto. Acabou a época das castanhas, que costumo assar e vender na Rua do Souto. O resto do tempo estou em casa», desabafa. Susana e Céu vendem 15 rebuçados a 1€, mas acrescentam sempre um ou dois. Mais até, se for bom freguês. Em média, fazem 15€ por dia. «Não se ganha muito dinheiro, mas ganha-se para comer no dia a dia», conta Susana. As vendas têm piorado. Este ano, desabafa, «está uma miséria». Céu concorda: «Antigamente as pessoas compravam muito mais. Eu por esta hora já teria tudo vendido e já tinha ido buscar mais». E é com o cesto quase cheio que o diz. Céu justifica o decréscimo das vendas com a falta de dinheiro dos crentes, fruto dos elevados níveis de desemprego. Mas também com o facto de as crianças já não apreciarem este tipo de guloseima. “As crianças agora querem outras coisas”, explica. «Hoje, são oferecidos de adultos para adultos», acrescenta Susana. É com um saco cheio de rebuçados acabados de comprar que Maria Ferreira, de 69 anos, lembra que os “rebuçados do Senhor” eram uma tentação para os filhos, quando eram pequenos e os viam à porta da igreja. Hoje, a tradição continua. «Os meus filhos já são grandes e ainda me pedem «oh mãe, traz-me rebuçados».

Susana também atribui parte da diminuição das vendas ao facto de as pessoas irem menos à igreja por esta altura. «Metade das pessoas que vinham, este ano ninguém as vê», acrescenta. Mas o pouco que lucra não a desmotiva: «Vende-se mal mas estamos aqui a conversar, arejo, vejo gente passar. Pelo menos não estou em casa a olhar para as paredes. Ficar em casa não é para mim. Eu gosto de trabalhar, de andar, de estar na rua ao ar livre». Céu, que já viu melhores dias para o negócio, explica que ser rebuçadeira “dá muito trabalho e pouco lucro” e confessa que, se hoje continua, é “por amor à tradição”.

 

“Rebuçados do Senhor”: uma tradição em vias de extinção?

Açúcar, água, uma pitada de destreza e prática quanto baste – eis a receita dos “rebuçados do Senhor”. O preparado de água com açúcar é posto ao lume: a dificuldade está em «acertar no ponto», garantem as rebuçadeiras. Foi uma amiga de Susana que lhe passou a receita. Após algumas experiências mal sucedidas, aprimorou a técnica: «Foi difícil, mas depois lá cheguei. No primeiro ano não correu muito bem, agora é sempre à primeira. Eu pelo cheiro já sei quando é que está pronto».

Fazem o preparado, depois colocam-no numa pedra mármore, partem e embrulham, numa rotina que se repete ao longo dos 40 dias. Escolhem o papel de seda com as cores mais garridas, para captar a atenção dos fregueses.

Quando está mau tempo, não saem para vender, mas o dia não deixa de ser de trabalho, adianta-se serviço para os dias seguintes. «Se estiver muita chuva, não venho, faço rebuçadinhos para as igrejas a seguir. Porque se estiver mau tempo nem as pessoas vêm à igreja. A gente anda conforme o tempo», explica Susana.

O fabrico dos rebuçados é artesanal, e o produto tornou-se, defende Rui Ferreira, numa «imagem da arte popular». «É uma tradição da cidade», diz Susana. E essa tradição já chegou a Roma, ao Papa Francisco, pelas mãos do presidente da Câmara Municipal, Ricardo Rio, que lhe levou rebuçados feitos por Céu. «Foram os meus rebuçados. Fico satisfeita», confessa a rebuçadeira. Preocupa-a que a tradição se perca. Afinal, hoje restam apenas ela e Susana. A imagem das rebuçadeiras enfileiradas à porta da igreja vive apenas na memória de alguns. Receia que pouca gente queira perpetuar esta prática, por ser um ofício duro e pouco rentável. A filha, de 37 anos, está a aprender como se faz, para não deixar morrer o que outras começaram e a mãe continuou. No que depender de si, os “rebuçados do Senhor” continuarão a adoçar os fiéis e a indicar que ali, naquela igreja, naquele momento, se encontra o Santíssimo Sacramento exposto para adoração. 

 

Autor: Filipa Correia e Ana Marques Pinheiro
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